Para os meus leitores. De livro, de blog, e até mesmo os coitados dos juízes e ex-adversos que tiveram que ler minhas petições.

Agradecimentos:
Aos que leram o manuscrito e a todos os exóticos e pouco ortodoxos filhos do meio que me forneceram vasta inspiração.

Ficha Técnica:
Escrito entre maio de 95 e fevereiro de 96, constantemente atualizado e recusado pelas melhores editoras do ramo. Tenho até hoje emoldurada a recusa da Conrad, a primeira de todas.

Sei que se meus textos tivessem pedigree, seria algo ali pelos filmes do John Hughes, com atenção especial para A Garota de Rosa Shocking e Alguém Muito Especial. Mas filmes são filmes e livros são livros, portanto, vamos aqui aos co-responsáveis, tudo aquilo que veio depois de Marcelo, Marmelo e Martelo e Meu Pé de Laranja Lima, e que contribuíram bastante com o que eu ouso chamar de "estilo":

1- Feliz Ano Velho - Marcelo Rubens Paiva
2- Pergunte ao Pó - John Fante
3- Dom Casmurro - Machado de Assis
4- Os Velhos Marinheiros - Jorge Amado
5- O Primo Basílio - Eça de Queiroz
6- O Fio da Navalha - Somerset Maugham
7- O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde
8- Morangos Mofados - Caio Fernando Abreu
9- Micro Servos - Douglas Coupland
10- Alta Fidelidade - Nick Hornby
11- Pai e Filho - Tony Parsons
12- Intimidade - Hanif Kureishi
13- A História Secreta - Donna Tartt
14- O Dom de Gabriel - Hanif Kureishi
15- O Apanhador no Campo de Centeio - J D Salinger
16- O Encontro Marcado - Fernando Sabino
17- Xadrez, Truco e Outras Guerras - José Roberto Torero
18- Cléo e Daniel - Roberto Freie
19- O Mundo de Sofia - Jostein Gaardner
20- Um Grande Garoto - Nick Hornby
21- A Mesa Voadora - Luís Fernando Veríssimo
22- Malu de Bicicleta - Marcelo Rubens Paiva
23- Relíquias de Casa Velha - Machado de Assis
24- Os Miseráveis - Victor Hugo
25- Febre de Bola - Nick Hornby
26- Postais por Escrito - Ricardo Freire
27- Máquina de Pinball - Clarah Averbuck
28- O Matador - Patrícia Melo
29- Capitães de Areia - Jorge Amado
30- Chega de Saudade - Ruy Castro
31- O Clube dos Corações Solitários - André Takeda

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(Atendendo aos pedidos dos poucos, mas fiéis leitores, e aproveitando que oficialmente o livro acabou de chegar a metade, posto o final do quilométrico Capítulo VI. O texto ficou extenso e a revisão eu mandei um pouco prás Calendas, vamos ver o que vocês acham.)

Era impresionante como o álcool agia de forma decisiva ao seu favor, já que, após algumas doses, ele já se considerava credenciado a tentar alguma coisa com a Laura. Esta súbita auto-confiança aumentou ainda mais quando o cara do violão começou a tocar "Todo azul do mar", musiquinha bunda do 14 biz. Olhando fixamente para a Laura, Tuta acompanhou:
"Foi assim
como ver o mar
a primeira vez
que meus olhos
se viram no seu olhar
não tive a intenção
de me apaixonar
mera distração
e já era
momento de se gostar..."

Então ele viu os olhos dela brilhando como se ali tivesse "todo azul do mar", o mar que ele tanto amava. Não dava para segurar, ainda mais depois que ele percebeu "aquele" sorriso sincero e desconcertante. Um frio inesperado percorreu-lhe a espinha e seu coração parecia o Olodum em dia de ensaio, tamanha era a força que ele batia. Enquanto rolava a música do 14 bis, ele pegou a mão dela e começou a brincar com o anel que ela usava, girando-o em torno do dedo. Ela apoiou a cabeça no ombro dele e após um curto espaço de tempo sussurrou no seu ouvido:
- Vamos pra lá?

Não era preciso dizer mais nada, eles se levantaram e foram conversar na escada que dava acesso ao prédio:
- Eu tenho que tomar cuidado pro meu pai não me ver aqui.
- Por quê? Você não tá fazendo nada de errado.
- É, mas não pretendo ficar sem fazer nada de errado.
- Sei...
(Silêncio levemente constrangedor, que rapidamente foi quebrado pela Laura)
- Eu passei a tarde toda vendo seu desenho.
- Gostou?
- Muito dez! Fiquei viajando nele. Significa alguma coisa ou você foi riscando à toa?
- Mais ou menos, eu tava tentando desenhar a praia dos meus sonhos. Cheia de ondas, como todo surfista gosta; com o sol ardendo o dia todo e à noite, uma lua em quarto crescente para fechar a paisagem.
- Legal! Mas quando eu te pedi o desenho você falou que tava faltando alguma coisa.
- E tava, a minha praia ainda não tava completa.
- E o que que faltava?
- Você! Só faltava você na minha praia...

Assim que ele terminou de falar, recebeu o melhor beijo da sua vida: louco, demorado, insinuante, promissor, espetacular e todos os outros adjetivos que passaram pela sua cabeça naquela momento inesquecível. Agora sim, a sua praia estava completa, pois ali, com os olhos fechados num beijo, ele conseguia visualizar-se passeando de mãos dadas com a Laura pela praia ensolarada, onde o dia morria num fabuloso pôr-do-sol e cedia lugar a uma noite estrelada e com uma lua em quarto crescente sorrindo no céu.
Tuta nem viu que o beijo havia terminado, só recobrando a consciência ao ouvir a voz da Laura:
- E aí, Tuta? Eu tive que tomar a iniciativa, né?
- Tava demorando?
- Ô! Acho que se eu não tomasse uma atitude a gente ia ficar no "zero a zero".
- Aí você resolveu partir pro ataque?
- Hum-hum! E como eu me saí?
- Gol de placa! Delírio geral da galera!
- E você não tá afim de empatar?

Seria desnecessário e redundante mencionar que muitos outros beijos rolaram naquela noite em que o Tuta começava a descobrir qual era a onda de se apaixonar. Por muitos e muitos anos depois, ele seria capaz de lembrar de cada mínimo acontecimento daquela noite, em que o descrente coração do Tuta começou a perceber que poderia desligar-se um pouco do ódio que nutria pela humanidade e entregar-se a um outro sentimento mais saudável e gratificante.

Na manhã seguinte, sem terem combinado nada, o Tuta pintou na barraca do Rumenigge com aquela expressão de quem tá procurando alguém. O dono da barraca logo o questionou:
- Ué, goiano, cade a prancha?
- Tá lá em casa, Rumenigge. Hoje eu tô procurando outras ondas...
- Então pode ir buscar a prancha — falou a Laura logo atrás dele — ou você esqueceu que Goiânia não tem mar?
- Não, Lau, não esqueci. Mas é que eu queria aproveitar com você.
- A gente tem a noite toda pra isso, Tuta. Você acha que eu seria tão egoísta a ponto de te privar do mar? E tem mais, eu tenho um curso de fotografia e tava afim de tirar umas fotos suas.
- Minhas?
- Hum-hum.
- Surfando?
- Claro! Mas essa praia é muito lotada e eu conheço uma que tem ondas legais e é mais vazia.
- Onde?
- Fica a uns 15 kms daqui, você pode pegar o carro?
- Posso. Mas deixa pra amanhã, hoje eu tô afim de passar o dia todo com você, vamos andar?
- Vamos, mas a sessão de fotos fica marcada pra amanhã sem falta, falô?
- Só!

Eles foram andar e conversar, com o objetivo comum de se conhecerem um pouco mais. A medida que conversavam, Tuta tinha a impressão que a Laura era "boa demais para ser verdade". Pela primeira vez ele notou que a Nicole não era a única pessoa capaz de fazê-lo sentir-se de alto astral e discorrer sobre diversos assuntos com a maior naturalidade. Mesmo com a Carla — a cleptomaníaca da primeira vez — ou a Daniela, que de certa forma haviam balançado um pouco as estruturas do filho do meio, ele não tinha sentido essa coisa tão... sei, lá, "diferente" que estava rolando nesse momento com a Laura. E ela surpreendia-se com a capacidade que o Arthur possuía de conversar sobre qualquer assunto como se fosse um perito naquilo. Dentre outras qualidades que ela percebeu no goiano, destacou uma:
- Arthur, você é sensível...
- Sensível?
- É! Não gostou do elogio, não?
- Elogio? Sei lá, Lau, esse lance de "sensível" parece coisa de veado. Ainda mais agora que eu passei para arquitetura vou ficar meio encanado com isso.
- Então pode desencanar, que não tem nada a ver com viadagem; você é sensível, não dá para explicar ou definir, cara. Parece que você tá sempre em cima do muro na hora de emitir uma opinião pessoal, mas dá um jeito da gente sacar que você se interessou por nossos grilos.
- Sei... E isso quer dizer que sou sensível?
- Também. Mas não há como negar, Tuta, a maneira como você desenha... tem que rolar uma certa sensibilidade pra você passar pro papel o que tá sentindo. Tem gente que escreve, canta ou toca algum instrumento; você desenha, essa é a maneira de deixar escapar muita coisa que você possa estar sentindo.
- É. Acho que tem a ver. Eu nunca parei para pensar por que razão eu desenhava. Vai ver que ninguém ainda tinha sacado isso em mim.
- E se você deixar, eu quero descobrir muito mais coisas sobre esse surfista-desenhista.
- Está devidamente autorizada!

E Tuta estava empolgadíssimo em deixar que a Laura o conhecesse e descobrisse coisas que nem ele mesmo sacava, como a tal "sensibilidade". Entre assuntos inocentes e papos verdadeiramente profundos, eles atravessaram o dia levando o verbo namorar aos limites da exaustão, pois não se desgrudaram um minuto até o pôr-do-sol, quando Tuta foi em casa para um rápido banho e voltou ao prédio da Laura, onde permaneceram até altas horas entre beijos promissores e altos papos sobre diversos assuntos.

No outro dia, rolou a tal "sessão de fotos", num dos dias mais inspirados do Tuta (surfisticamente falando), sem falar no mar que o ajudou, mandando ondas fenomenais. A Laura preparou uma autêntica cesta de piqueniques e a praia secreta e deserta que ela conhecia serviu de paisagem para mais um dia inesquecível dos dois.

Depois do surf, das fotos e do lanche, eles deitaram sobre a sombra de uma rocha e deram uma cochilada gostosa, com Tuta descansando a cabeça no colo dela. Assim que acordaram, notaram que o sol estava baixando e passava da hora de voltarem para casa. Durante o caminho de volta, Tuta animava-se por estar apaixonado por uma menina tão legal como a Laura e decepcionava-se por saber que, inevitavelmente, teria que voltar para Goiânia em uma semana.

Ele nunca surpreendera-se tão positivamente num relacionamento quanto naquele. Parecia que eles já se conheciam há muito tempo e o prazer que a companhia dela lhe proporcionava, além de ser indescritivel, era a única coisa que ele tinha certeza que jamais abriria mão. Era tudo perfeito demais, bonito demais, sincero demais, intenso demais, e ele ficava constantemente se perguntando o que mais estava para acontecer. Porém, a próxima surpresa que ele teria estava longe de lhe agradar, pois ao deixá-la na porta do prédio, ouviu-a dizer:
- Você vai vir aqui em casa hoje?
- Claro! Alguma objeção?
- Nenhuma! Eu só queria que você subisse.
- Subir?
- É. Subir até o meu apartamento, tudo bem?

Tentando disfarçar o desapontamento, Tuta respondeu:
- Tudo bem, lá pelas nove...
"Bosta!" — pensou Tuta, ao voltar para casa — "O quê será que essa menina tá afim de fazer? Tava tudo indo tão bem, porra! Subir no apartamento dela pra que? Conhecer o sogrão e falar sobre a minha família? Caralho, é só um namorinho de verão! Ou ela vai querer se mudar pra Goiânia? Que bosta! Mas ela vai ver uma coisa, não perde por esperar..."

Então a mente doentia, diabólica e vingativa do filho do meio começou a funcionar, planejando uma maneira de fazer aquela menina pagar caro por tentar enquadrá-lo no velho e gasto esquema de namoro no sofá da sala de televisão, ainda mais se tratanto de um namorinho de verão...

O plano começou na indumentária. Ora, se ele iria oficialmente ser apresentados aos sogros, nada de bermudões e camisetas estampadas. O lance era calça jeans e uma camisa de botões que ele pegou emprestada do Serginho, pois só um caretaço como ele se lembraria de levar camisa de botão para a praia. Tudo bem, pois hoje o Arthur precisava ser tão careta quanto o irmão; então ele aproveitou tambem e pegou seu "dockside" para subistituir o surrado e usual Redley. Uma última olhada no espelho para conferir o visual e ele constatou que só faltava um blazer para compor o tipo perfeito que ele pretendia representar essa noite, mas nem mesmo o Serginho levaria um blazer prá Camburiú.

O primeiro passo já fora dado, restavam agora os seguintes: parar numa floricultura e comprar um pequeno buquê para a sogra e um bom vinho para o sogro num supermercado, para dar uma boa impressão. Feito isso, agora ele só precisava inventar uma estória pra contar quando eles, inevitavelmente perguntassem sobre a sua família. O lance da cocaína com a Daniela fora legal, mas hoje Tuta tava querendo algo mais chocante.

"Já sei!" — imaginou Tuta ao vislumbrar um plano — "depois de causar uma excelente primeira impressão eu falo que minha família é latifundiária, um negócio altamente rentável. O único grilo é quando acontecem invasões de terras, dá um trabalho imenso tirar toda aquela gente asquerosa da nossa fazenda."

Enquanto dirigia rumo ao prédio da namorada, Arthur insaiava mentalmente o discurso que faria:
"Eu me recordo uma vez que fui ajudar a expulsar os invasores, foi o maior barato. Só teve um problema: uma mulher grávida com um nenê no colo me desafiou e disse que só sairia de lá morta. Foi o grande e último erro da vida miserável daquela mulher... (após uma pequena pausa, Arthur prosseguiria, com os olhos totalmente arregalados) eu peguei um pedaço de pau e bati na barriga dela umas vinte vezes, depois com o meu facão, abri a garganta dela. Então, o nenê dela caiu no chão e começou a chorar. Meu Deus! Como eu detesto choro de criança! Com o mesmo pau que eu bati na mulher eu esmaguei a cabeça do bebê. Voou pedaço de miolo para todo lado. Eu não sei se eu deveria fazer aquilo, mas a culpa é desse meu temperamento explosivo e incontrolável, quando eu saio do normal, nada me segura..."

O plano era fantástico! Se ele conseguise dar uma babada então, seria perfeito. Ao descer do carro, vestido como idiota, com uma garrafa de vinho em um das mãos e um buquê de flores na outra, Tuta ssentiu-se estereótipo do bundão.
- Eu queria ir ao apartamento da Laura — dirigiu-se ao porteiro.
- Seu nome, por favor?
- Arthur.
- Ela já está lhe aguardando, pode subir.
- Obrigado.
- Bonita camisa!
- Valeu! É do meu irmão...

Subindo pelo elevador ele começava a sentir a adrenalina lá em cima, pronto pra colocar o plano em prática, detonar os velhos e nunca mais se apaixonar de novo. Tocou a campainha e ficou aguardando quem viria abrir a porta. Será o sogro, a sogra ou a empregada? Nada sairia errado e essa noite ele se divertiria pra caramba. A porta se abriu e...
- Tuta?! Você tá lindo!

Era a Laura! Ele ficou surpreso e totalmente atordoado, pois algo lhe dizia que a intenção da Laura para aquela noite não tinha nada a ver com o que ele imaginara. A razão de sua desconfiança não foi só a escuridão no apartamento e sim a minúscula camisola preta que ela usava, fazendo-o pensar, por algum motivo, que seus pais não estavam em casa:
- Não vai entrar não, Tuta? Vai ficar ai na porta, paradão?
- Vou, vou entrar sim...
- Qualé, Tuta? Que cara é essa? Não gostou da surpresa?
- Eu tô tentando sacar qual é a surpresa.
- A surpresa? Meus pais viajaram pra Itapema e só voltam amanhã a tarde. Eu pedi uma pizza pra gente, você gosta?
- Gosto. Você tá linda...
- Eu?! Você é que tá muito lindo, super diferente! Essa camisa ficou maravilhosa em você!
- Sei... Valeu!
- O que é isso na sua mão?

Só então ele lembrou que havia comprado as flores e o vinho pra tirar onda com os sogros. Rapidamente ele se saiu com essa:
- Pra você! Vinho não combina com pizza?
- E as flores?
- Combinam com você...

Um diálogo que perfeitamente poderia ter sido feito pelo Serginho foi muito útil ao Tuta, pois a Laura se derreteu e respondeu com um beijo igual ao primeiro, indicando que a pizza e o vinho iriam esperar, sem falar que ela colocara o disco do The Cure prá tocar estrategicamente em "In Between days"... Sem interromper o beijo, ela tirou a camisa "maravilhosa" do Serginho e jogou-a no chão. A caminho do quarto, o "dockside" ficou pelo corredor e, ao lado da cama, a Laura o deixou livre das calças e o Tuta despiu-a da camisola.

Como vieram ao mundo, os dois deitaram na cama conscientes da loucura que estavam prestes a cometer. Sem dar muita importância para opinião de terceiros e falsos pudores, faziam as carícias preliminares levando-se em conta apenas a intensidade do que estavam sentindo. Meio incrédulo e maravilhado, Tuta torcia para que, dali a muito tempo, ele pudesse lembrar de cada detalhe que aconteceu naquele quarto de frente para o mar ao som de "In Between Days".

Foi tudo muito diferente, inesperado, inconsequente, louco, maravilhoso e rápido. Tudo que rolou durante mais de uma hora, parecia não ter durado mais que uma pequena fração de segundos para os dois ofegantes e cansados "namorados de verão". O pequeno e interminável "silêncio de depois" foi interrompido pela Laura, a primeira a notar uma mancha vermelha no lençol, que denunciava uma virgindade recentemente perdida:
- Ih, Tuta! Eu tenho que pegar um pano para limpar isso!
- Pode deixar que eu cuido disso!

Sem pensar duas vezes, o Tuta foi até a sala, pegou a camisa "maravilhosa" do Serginho, molhou na água e começou a remover a indesejável mancha, sem dar ouvidos aos protestos da Laura:
- Você tá ficando doido, Tuta? Logo essa tua camisa linda?
- Ah, Lau, foi mau! A primeira coisa que eu vi na frente eu peguei (mentira cabeluda), nem vi o que era...
- Sem grilo. Deixa aí, Tuta. Não vai sair mesmo, amanhã eu dou um fim nesse lençol. Vem pra cá, me abraça?

E como não? Tuta tentava acreditar que aquilo estava realmente acontecendo com ele, um porra-louca com uma menina mais porra-louca ainda e vivendo o mais porra-louca dos momentos! Comeram a pizza, tomaram o vinho, ouviram música e conversaram a noite toda, explorando ao máximo a latente intimidade que começava a pintar entre eles. Era incrível como os dois podiam combinar tanto nos papos que levavam, deixando a madrugada ainda mais inesquecível que o início da noite, quando tudo aconteceu.

Por incrível que possa parecer, eles não transaram de novo aquela noite, em que dormiram abraçados, fechando com a chave de ouro o melhor dia de toda a vida do Tuta... O relógio biológico do Tuta já estava acostumado a despertar por volta de sete, sete e meia, portanto, tendo transado ou não, tomado vinho ou não, dormido tarde ou não, no dia seguinte, antes das oito ele já estava de pé.

Tá certo que ele acordou meio assustado, estranhando um pouco o local, mais aos poucos ele foi se lembrando do fato ocorrido na noite anterior e então se tranquilizou. O rosto iluminado por um sorriso que o recebeu na porta; o rosto louco e convidativo que o surpreendeu com um beijo; o rosto medroso que teimava esconder a dor naquele único e inesquecível momento, com algumas lágrimas teimando em cair; o rosto alegre que se divertia com as sacanagens que o Tuta fazia com os irmãos, e todos os rostos que, naquela noite marcaram a memória do Tuta pra sempre, era o rosto da menina que ele estava apaixonado, sem sombras de dúvidas.

Ali ao seu lado, ele via a Laura dormindo e, mesmo assim, ficou admirando-a, numa contemplação quase magistral. Ela era muito linda e tudo aquilo que estava acontecendo iria acabar, inevitavelmente dali a alguns dias. Mas tudo bem, pois ele prometeu a si mesmo que aproveitaria ao máximo tudo que viesse a ocorrer.

Enquanto se deliciava com o dormente rosto à sua frente, Tuta tentava imaginar o que poderia fazer para surpreendê-la. Levar café na cama? Não, não seria uma boa, pois ele não sacava nada de cozinha e não iria fuçar na geladeira da menina. O que fazer numa situação dessas? Nos filmes parece tão fácil; o galã gostosão entra no quarto com uma bandeja cheia de coisas gostosas e acorda a menina com um beijinho na testa, tudo aparentemente fácil; mas pro Tuta, um completo leigo no assunto, a situação era um beco sem saída.

Em meio aos seus planos e reflexões, o Tuta viu a Laura despertando lentamente, com os olhos relutando em abrir a cada espreguiçada. Ao abrir o olho, viu o Tuta o encarando e perguntou, com a mais sonolenta das vozes:
- O que que você tá olhando pra mim?

Logo em seguida, presenteou o Tuta com "aquele" sorriso! Como era bom recebê-lo assim de manhã! Sem se dar muito trabalho sobre o que dizer, ele respondeu:
- Te amo!
- Que?
- Tá surda? Te amo!
- Que lindo! Você tem certeza?
- Não e nem quero ter, só sei que te amo!
- Eu também não tenho certeza, mas também te amo!

Dois loucos, obviamente. E assim ocorreu a segunda vez deles, num clima totalmente maluco e recheado de "te amos"! Ora gritados, ora sussurrados e ora denunciados pelos olhos e sorrisos daqueles malucos apaixonados.

postado por Randall Ferreira Neto às 12:08 | Comments:



(Já que Tio Randas anda ocupado demais com sua vida de celebridade, Blue assumiu o papel de postadora oficial e promete tentar fazer o possível para agradar a todos. Assim, continua revisando e enviando este praticamente infinito Capítulo VI.)

Nestas férias, o Tuta parecia um tanto desencanado de farra, pois em três dias em Cambú, fora só uma noite na boate, porém, completemente sóbrio. Suas atenções estavam novamente voltadas para o reino de Netuno, onde ele estava cada vez mais familiarizado. Parecia também que o mar o parabenizava pela sua aprovação, pois lhe dava as melhores ondas que ele já vira, uma atrás da outra.

Num dia particulamente bem-sucedido, Tuta saiu do mar para a pausa do suco de mamão com laranja na barraca do "Rumenigge", um sujeito descedente de alemão que se parecia com Karl Heinz Rumenigge, atacante famoso da seleção alemã.
- Aí, Rumenigge, faz aquele mamão com laranja caprichado!
- Claro, goiano-tranqueira! Tu tá ficando bom no mar, hein, mano?
- É foda, bicho. Quando eu tô beleza chega a hora de ir embora, fico puto!
- Tu é esforçado, goiano! Qualquer dia muda pruma cidade litorânea.
- Isso é certeza, Rumenigge. Longe do mar é que eu não fico por muito tempo... - falando isso e olhando pro imenso oceano à sua frente, ele percebia que sua vontade de morar à beira-mar ainda era um sonho longe de ser concretizado. Mesmo assim, acalentava o sonho e torcia pro destino dar uma forcinha.

Enquanto dava um tempo antes de ir para o mar novamente, ele pegou uma caneta e um pedaço de papel com o Rumenigge e começou a desenhar o mar, cheio de ondas e o pôr do sol confundindo-se com uma lua em quarto crescente. Assim como todas as vezes que ele desenhava, estava totalmente absorto em sua "obra", desligado do mundo à sua volta. De tão desligado que estava, só foi notar a presença de uma menina à sua frente quando ela falou:
- Além de surfar legal, você também desenha?

Ele não a conhecia. Infelizmente, diga-se de passagem, ele não conhecia aquele monumento à sua frente. Ela não era tão grande quanto a gringa do Crustáceo de outras temporadas, mas tinha um tamanho imponente. A pele estava bem bronzeada, contudo ele imaginou que fosse clara sem o fator sol-melanina. Os cabelos castanho-escuros batiam pouco abaixo dos ombros e os olhos eram de um azul tão intenso quanto o mar que servia de pano de fundo para aquela escultura.

Como se fosse numa cena de filme, um carro parou atrás da barraca e, com o som no último, invadia toda a região com os acordes de "In Between Days" (The Cure), o grande sucesso daquele verão. Por alguma razão, mesmo sem ser muito fã daquela banda, o Tuta elegeu aquela música como sendo a responsável por dar um clima quase Hollywoodiano ao encontro.

Após a rápida análise, enquanto o Tuta a olhava por cima das lentes dos óculos de sol, respondeu:
- Quem me dera se eu surfasse legal, só tô aprendendo.
- É sério, você surfa bem. Posso ver seu desenho?
- Ainda não terminei. Tá faltando alguma coisa...
- Deixa eu ver assim mesmo, vai?
- Falô.

Ela pegou o desenho e ficou verdadeiramente admirada com o ¿trabalho¿ dele.
- Você desenha muito bem! Me dá esse desenho?
- Tá bom. Deixa eu pôr uma dedicatória "tiração de onda" aqui; como é que você chama?
- Laura. E você?
- Tuta.
- Tuta?
- Meu nome é Arthur, mas as pessoas que eu simpatizo eu permito à intimidade de me chamar pelo meu restrito apelido.
- E eu acabo de entrar nesse grupo de pessoas?
- Não tá honrada?
- Ô! Tô até arrepiada...

Então ela sorriu e Tuta percebeu que havia algo mais naquela menina que conversava com ele: era o sorriso mais lindo e sincero que ele já havia visto na vida. Algo lhe dizia que aquela papo ia render bem mais...
- O que que você tá tomando, Tuta?
- Mamão com laranja. Há uns quatro anos eu só tomo isso, aqui no Rumenigge.
- Rumenigge! Faz um mamão com laranja para mim! - e voltando-se para o Tuta - você é de onde?
- Goiânia.
- Putz! Tão longe... sem praia, e você surfa bem pra caramba! Você vem muito aqui?
- Há uns dez anos ou mais; minha família tem apartamento.
- A minha também, é esse aqui atrás.
- Esse gigante? Eu tô conversando com uma magnata, então?
- Corta essa, vai, Tuta...
- Você é de onde?
- Curitiba. Quase todo feriado no verão a gente vem para cá...

O papo rolava solto e Tuta viajava no sotaque dela. Alguns "mamões com laranja" depois e eles perceberam que já passavam das duas e o estômago de ambos estava roncando. Despediram-se e combinaram de se encontrar à tardinha para um sorvetinho e uma passeada.

Por volta de seis e meia, como fora combinado, ele passou na porta do prédio dela. Ela usava um vestidinho solto, sandálias e um boné australiano, fazendo Tuta pirar a cabeça. Ele estava com o inconfudivel bermudão de surfista, uma camiseta da "OP" e o tênis da Redley - última moda em Goiânia lá pelos idos de 87.

Ele não era muito fã de sorvete, mas a Laura valia o sacrifício, e como valia... Sem querer ser muito precipitado, ele deduziu que estava se apaixonando e preparou o bote para a noite, quando a convidaria para ir à boate. Porém, seus planos foram levementes frutrados ao perceber que os pais dela não a deixariam ir a boate sem as irmãs mais velhas. Mesmo assim, restou-lhe o consolo de ir ao prédio dela à noite, onde a galera que não podia sair pro "rock" se reunia. Somente uma "paixão" incontrolável e avassaladora seria responsável por fazê-lo abdicar de uma noite inteira na boate por uma inocente área de lazer em um prédio.
Mas, nessa área de lazer inocente tinha a menina que fazia o coração do Tuta bater bem mais forte. Cada vez que ele a via, mais apaixonado ficava e, ao chegar no prédio, constatou que nunca sentira um frio na barriga tão intenso ao ver uma menina.

Sem tentar decifrar o que era aquilo que ele estava sentindo, acompanhou-a até a area da piscina, onde o pessoal estava reunido, mas era óbvio que ele não queria conhecer mais ninguém, pois a menina mais interessante do mundo estava ao seu lado, o apresentando aos demais moradores do condomínio. Tuta não decorou nenhum nome ou rosto daquelas pessoas, extremamente ansioso para ficar sozinho com a Laura, que estava lindíssima e cheirosa, enchendo o ambiente com seu sorriso maravilhoso.

Ela também mostrava interesse em levar um papo mais "direto" com o Tuta, mas a ansiedade dos dois teve que esperar um pouco, pois formou-se uma rodinha de violão regada a batidinha de abacaxi e vinho branco. Em meio aos últimos sucessos da Legião Urbana e dos Paralamas, e composições antigas do Caetano, Osvaldo Montenegro, Marina e Lulu Santos, entoados pelo violonista oficial, Tuta ia expulsando o fantasma da timidez ao se reaproximar do seu velho amigo, o Deus Baco.

postado por Randall Ferreira Neto às 00:56 | Comments:



(Blue, ainda postando o Capítulo VI — e não IV, falha minha —, de acordo com os pedidos do Randall. Alguém mais está acompanhando, além do Fábio?)

Obviamente não ficou em um copo só, nem mesmo em uma garrafa. Levando em consideração o respeitável passado etílico dos dois, uma boa quantidade de vinho desceu pelas respectivas gargantas dos pré-vestibulandos, fazendo fluir mais uma agradável conversa:
- É amanhã, Ni: a prova das provas!
- É... Dessa vez é para valer! Não tem cola, troca de provas, gabarito arranjado, nada!
- O bicho vai pegar! Eu tô com um pouco de medo de Química.
- E eu de Física. Pra quê que eu vou querer estudar Física na faculdade de Direito?
- E eu com Química? E Biologia, Ni? Eu vou projetar casas, pontes e o cacete de quatro! Pouco me importa o revestimento quitinoso do exoesqueleto dos insetos ou o fato das células justapostas do tecido epitelial se alimentarem por difusão...
- Se eu passar, vou fazer uma foqueira com os livros do segundo grau. Não quero nem ouvir falar nessas matérias xaropes!
- E eu vou tomar um porre histórico! Se Deus quiser, lá em Camboriú! Um brinde à porra do vestibular!
- Um brinde a Arthur, o arquiteto!
- À Nicole, a advogada!
- A Tuta, o surfista!
- À Nicole, a dona de casa!
- A puta que o pariu! Dona de casa o caralho! A partir de amanhã tem início a minha brilhante carreira jurídica, rumo a magistratura!
- Nicole, a juiza?!
- Pode crer, Tuta! Eu chego lá! Vamos tomar!

Tomaram, brindaram, riram, planejaram, desistiram, choraram, reanimaram-se, despediram-se por volta das 2h30 da manhã e foram dormir, devidamente preparados para a batalha do dia seguinte. Quando o Tuta tocou a campainha na casa da Nicole às 6h30 e a "tia" Marta atendeu, esta notou que o estado dela era tão deplorável quanto o da filha. Os olhos inchados deduravam a noite passada em branco, ainda sob o danoso efeito do álcool. Convidou-o para entrar e apressou a Nicole, que empenhava-se em exterminar um litro de coca-cola:
- Tchau, mãe!
- Pegou a indentidade?
- Peguei!
- E o cartão?
- Também.
- Duas canetas, lápis, borracha?
- Hum-hum.
- Tá preparada?
- Acho que sim.
- Boa sorte!
- Obrigada!
- Boa sorte, Tuta!
- Valeu!

Desceram para a garagem e assim que deu partida no carro, a Nicole puxou assunto:
- E aí, Tuta? Acabadaço?
- Mais ou menos. Ressaca de vinho é foda.
- É... Tuta, nós vamos passar, né?
- Vamos, claro que vamos!
- A gente estudou pra cacete...
- Nem tanto!
- É, mas estudou. Eu mereço passar mais que você, eu estudei bem mais.
- Sem essa, Ni! Foi só esse ano que eu relaxei, nos outros eu levava relativamente a sério.
- É, a gente merece igualmente.
- Tá bom!
- E se a gente não passar?
- Que?
- E se a gente levar pau, como é que fica?
- Sei lá, não quero nem pensar nisso. Acho que a gente vai acabar num cursinho.
- Será? Tem um tal de Rubão que todo mundo fala dele. Parece que o cara é o capeta.
- Eu sei, eu sei. Também já ouvi falar dele. Todo mundo que faz terceiro ano fica meio assombrado com esse cara, tem altas estórias sobre ele, que ele persegue alunos em festas e tudo mais.
- Deus me livre! De neurótico já chega o Alfredo lá do Objetivo.
- Esquenta não, Ni. Nós vamos passar!
- É. Vamos passar! — alguns segundos de silêncio — será, Tuta?
- Porra, Ni! Eu tô na maior nóia de estar fazendo o vestibular, tô com uma puta ressaca e você quer me deixar mais grilado? Nós vamos passar, Ni! Sabe por que?
- Por que?
- Não sei por que não, mas que nós vamos, nós vamos! Pode crer!
- Ainda bem que você tá nessa confiaça toda, quero ver se você me contagia...

Percorreram mais uns poucos quilômetros em silêncio, até a Nicole estacionar o carro. Quando Tuta foi se despedir dela para ir até o prédio onde faria a prova, a Nicole falou:
- Você ainda não sacou por quê que eu te dei aquele porre ontem, né?
- Ué, teve algum motivo especial? A gente nunca precisou disso.
- O ditado, Tuta, o ditado: Deus protege os bêbados e as crianças, lembra?
- Claro, Ni. Será que a gente ainda está sob a proteção divina?
- Acho que sim, tomara que sim. Boa sorte!
- Valeu! Pra você também. Se liga na redação, hein?
- Falô! Rasga na Matemática, Tuta.
- Só! Até depois da prova...

Ele estava sobre a proteção garantida pelo ditado, agora nada daria errado. Uma inesperada onda de confiança o invadiu subitamente e ele entrou na sala de prova com o astral lá em cima. Auto-confiança era tudo que ele necessitava àquela altura do campeonato, pois ele estava devidamente preparado para a "prova das provas".

A primeira que ele fez foi de Redação, por ter mais dificuldades. Apesar disto, Passou tranquilo pelo primeiro obstáculo. Sem maiores problemas, também concluiu a prova de Inglês, para passar à sua predileta, madrasta de muitos, paixão de Arthur: Matemática. Ele fez a prova como se xaveca uma menina, por etapas. Primeiro, analisou-a, lendo cuidadosamente as questões. Depois, releu a prova na defensiva, procurando pegas e tentativas de induzi-lo ao erro. Certificado de que estava tudo correto, partiu para o ataque, sempre atento para não dar nenhum passo em falso.

Cada questão era resolvida com a cautela que merecia: Álgebra era direta, não havia rodeios; na Geometria ele tinha que analizar e ver o que o problema queria dele. Trigonometria era uma bosta, igual menina que agente prefere que fique com a boca fechada, pois seu papo é tão vago quanto uma tabela de seno e co-seno. Antes de se enervar com a questão de Trigonometria, Tuta se divertiu com o restante da prova, convicto que o vestibular não era um bicho de sete cabeças, e no primeiro dia de guerra ele vencera a batalha, que viessem as outras...

A Nicole também não teve muitos problemas com as provas, estando igualmente pronta para o desafio do dia seguinte: História, Geografia, Física, Quimíca e Biologia. As três últimas matérias eram seus pesadelos e as duas primeiras seu triunfo. Se ela não desse muitas ratas nas "malditas", o vestibular estava no papo, pensou, antes de dormir. Ela teve sonhos terríveis, com moléculas de ácido orto-fosfórico sendo devoradas por "vuchererias bancrofits" num sistema hermeticamente fechado, em meio a reações adiabáticas e alotrópicas. Fórmulas de Física se confundiam com compostos químicos e nada mais funcionava no seu cérebro.
Passada a noite de cão, ela tomava café (sem saber se o café era uma monocodiledônia ou dicotiledônea) com pão com manteiga (lembrou-se do ácido butírico), esperando o Tuta. Quando a campainha tocou, ela foi atender e demorou para se recompor com a surpresa:
- Tuta, você ta careca?!
- Carecão! É tática, Ni. Viaja comigo: eu chego na sala de prova carecão, toda mundo vai perguntar porque, certo?
- Certo.
- Aí o Tutão responde: galera, pela prova de ontem eu já tenho certeza absoluta que passei. Vai abalar a confiança deles e o "degas" aqui vai fazer a prova no mó astral, sacou?
- Você bebeu?
- Todas! Tô desde as dez no rock'n'roll. Foi uma gata que faz Piscologia que me deu o toque da careca, você curtiu?
- Muito, Tuta, muito. Pelo jeito, você tá querendo toda proteção a que tem direito, né?
- É mais ou menos por aí, vamos nessa?
- Vamos.

Desta vez eles fizeram o trajeto sem conversar, pois o Tuta foi de casa até a faculdade ouvindo e cantando Man at Work, numa fita que a tal gata da Piscologia havia lhe dado. A Nicole o observava e desconfiava cada vez mais da sua sanidade mental. Ao chegarem, se despediram e a Nicole falou:
- Você ta horrível careca!
- Ainda não tiva coragem de me olhar no espelho. Tá maus?
- Hum-hum.
- Ah, foda-se! Pelo menos se eu passar não vou ter que raspar de novo.
- Nós vamos passar, Tuta!

E passaram. Vinte dias depois saiu o resultado e ambos foram aprovados, comprovando assim, a eficácia da tática piscólogica dele e do famoso ditado. Bobagem. Os dois sabiam que a aprovação era nada menos que o merecido prêmio por um segundo grau bem feito e algumas horas dedicadas ao estudo.

Tuta não se surpreendeu muito com o resultado e a Nicole começou a se preparar para vida universitária. Tomaram um porre homérico no Santuário e começaram a perceber tardiamente que começavam a ficar velhos.

O gozado é que a gente nunca se dá conta de que se está na idade certa; ou está novo demais ou está velho demais. A gente é novo demais quando se horroriza com coisas do tipo: "fulano tomou um porre na festa", ou "fulano fuma maconha". Ou então é proibido de ir a certos lugares sob o detestável pretexto de que "não é lugar para você". A eterna interrogação nos martela a cabeça: "quando é que eu vou ter idade para fazer tudo o que eu quero?". Quando a Nicole incomodava a sua mãe com esta constante pergunta, sempre ouvia: "Ninguém nunca viveu tanto tempo assim, minha filha...".

É um saco! Um sem-numero de "porquês" povoam nossas mentes, invariavelmente sem resposta. Quando começamos a descobrir as respostas, decifrando o mais obscuros enigmas, chegamos à seguinte conclusão: estamos ficando velhos. Porém, tais problemas ainda não incomodavam o Arthur, mas a entrada na universidade traz em si, implícita, uma certa maturidade e um senso de responsabilidade que ele não parecia disposto a suportar. Por isso, criava sólidos vínculos com a adolecência ao continuar bicando as colegas do seu irmão mais novo, para não perder de vez o contato com as pessoas em idade menor que a dele.

O fato é que ele passou no vestibular e toda família que gosta de tirar onda dá um presente pro filho. O Serginho ganhou um carro, lembram? A Nicole já tinha carro, mas o pai dela o trocou e a mãe lhe deu uma viajem à Europa. O Arthur? Bem, o Arthur ganhou uma prancha de surf nova, ajudando assim, a alimentar o seu eterno complexo de filho do meio, apesar dele saber que a família estava na pindaíba e sua viagem a Camburiú só seria como ele desejava devido a grana que o avô havia lhe deixado.

Ele pegaria uma parte da grana e iria comemorar sua aprovação no seu paraiso terrestre com ume excelente prancha nova e grana pra torrar como ele nunca tivera. As férias iriam arrebentar, apesar dele ter perdido seu companheiro de farras, o neo-monogâmico Crustáceo, que iria ficar em Goiânia, conforme as estritas e intransigentes exigências da namorada. "Fica, Crustáceo; justifica teu apelido e curte o tédio de Goiânia nas férias. Eu vou, mas vou mesmo!" — pensou Tuta no ônibus, a caminho de Camburiú, antes de adormecer e sonhar com a primeira e todas ondas que ele pegaria por lá...

postado por Randall Ferreira Neto às 14:59 | Comments:



(Blue, obedecendo as ordens deixadas pelo Randall, posta mais um trecho do Capítulo VI — estou indo muito devagar ou está legal pra acompanhar?)

Tudo ia muito bem, até que um dia, quando Tuta foi buscar a namorada para irem ao cinema, ela pediu para ele entrar. Ele não curtiu a idéia, pois a família dela poderia estar em casa e ele não estava muito afim de papo. Entretanto, sua surpresa só não foi maior que sua decepção, pois o próprio pai dela o esperava na suntuosa sala de estar. Meio em estado de choque, Tuta ficou observando aquele senhor careca a sua frente: ele usava óculos e estava vestindo calça de pregas e camisa pólo, dentro da própria casa, às oito da noite. Pela primeira vez, Tuta deu razão ao seu pai que, à qualquer hora que estivesse em casa, encontrava-se com o velho shorts de pijama que deixava o saco aparecendo se ele abrisse muito as pernas. O único adjetivo que ele encontrou para o velho embecado a sua frente foi "patético", e antipatizou com o sogro logo de cara:
- Pai, esse aqui é o Arthur — apresentou a Daniela.
- Muito prazer! — um aperto de mão — Sente-se.
- Muito obrigado, mas eu e a Dani vamos ao cinema e nós estamos em cima da hora.
- O cinema de vocês pode esperar, Arthur, sente-se que nós precisamos conversar.
- Nós?
- Sim! Eu, você e a Dani, sente-se.

Se o velho estivesse de bermuda, sem camisa, com uma cerveja na mão e afim de comentar o jogo do Flamengo, Tuta não o contrariaria. Porém, as circunstâncias que antecediam a conversa e os trajes aristocráticos do coroa não deixavam Tuta animado:
- Muito bem, Arthur. Você estuda?
- Estudo, faço o terceiro ano no Objetivo.
- Pré-vestibular? Já decidiu que curso vai fazer?

"Não é da sua conta, coroa!" — revoltou-se Arthur antes de responder:
- Acho que vou fazer Arquitetura.
- Arquitetura? Muito interessante. Você gosta?
- Gosto de desenhar.
- Hum! Como é o nome do seu pai?
- Sérgio.
- De quê?
- O sobrenome do meu pai é importante? — questionou, doido para pegar a Dani e vazar de lá.
- Calma, meu jovem, é apenas curiosidade. O que seu pai é?

"Um bosta, um escroto que dorme o dia inteiro e chifra minha mãe!" — pensou. Mas Arthur preferiu não emitir sua opnião pessoal e se fingiu de desentendido:
- Como assim, o que que ele é?
- O que ele faz, que emprego que ele tem?

Tuta teve vontade de cuspir na cara daquele velho, mas procurou manter a calma e respondeu, tentando concluir a conversa:
- Ele é profissional liberal.
- Ah! Ele é médico, engenheiro...
- Comerciante! — "Será que esse velho não se cansa?" Arthur só queria ir embora dali, mas o velho continuou, fazendo Tuta perder totalmente a paciência:
- Então seu pai é comerciante. E o quê que ele vende?
- Drogas em geral, mas o que está dando mais dinheiro atualmente é cocaína, sem dúvida. O senhor se interessa?

Assim que Tuta respondeu, viu a cara estarrecida do velho e se levantou para ir embora, espumando de ódio. Antes de chegar no carro, Daniela o alcançou:
- Por que você fez isso, Tuta?
- Eu? Você é que deveria ter me avisado para eu trazer o meu currículo!
- Você não entende, é o jeito dele!
- Eu não sou obrigado a ouvir aquele papo aranha! Cai na real, Dani agente tá namorando, seu pai me tratou como se eu estivesse pedindo sua mão em casamento!
- E aí eu danço, só porque meu pai se comportou mal?
- Não sei, Dani! Eu gosto de você, muito. Mas acho que seu pai não me aprovou no teste inicial, né?
- E você não vez o minimo esforço para passar, você é foda!
- Neste tipo de teste, Dani, eu não tenho o menor grilo de tomar bomba...
- E como é que fica?
- Como é que fica? Olha lá na porta da sua casa e vê a cara do seu pai. Acho que ele vai te dizer como é que fica...

Desnecessário dizer como é que ficou, pois o rígido pai da moça a proibiu terminantemente a namorar aquele rapaz desrespeitador. Assim, esse foi o preço que a Daniela pagou por tentar enquadrar o Tuta de maneira tão radical. O namoro, os cinemas e a ausência da cachaça ele suportava, mas encarar um papo com o pai da namorada sobre famílias e intenções era muito para cabeça irreverente dele. Eles ainda se viam raramente, mas sem compromisso de namoro e a relação dos dois acabou se desgastando, reduzindo-se a meros "oi, como você vai?" pelos corredores do colégio e nos shoppings da vida.

A mãe do Arthur ficou decepcionada com o fim do namoro e não entendia porque os pais da ex-namorada do Arthur olhavam meio torto para ela no Country. O lance é que, em meio ao final trágico do namoro, a Daniela esqueceu-se de desmentir o Arthur sobre a verdadeira profissão do ex-sogro, então...

No mais, bola para frente, pois não seria o final do primeiro namoro sério do Arthur que o abalaria e o deixaria de baixo-astral. Ele só não voltou para esbórnia por falta de companhia, já que o Crustáceo, o último dos solteiros estava devidamente encoleirado pela amiga da ex-namorada do Arthur: Flávia era o nome da intrépida donzela capaz de endireitar e encaretar o Crustáceo. Assim, as atenções do Arthur até que enfim começaram a voltar para o vestibular. Na cabeça dele, novembro era uma boa época para começar a pensar no vestibular, a menos de um mês das provas. Finalmente ele decidira prestar para arquitetura e passara com louvor no teste de aptidão, faltando apenas as temíveis provas do núcleo comum.

Com a empolgação de Arthur em obter sucesso no vestibular, este se reaproximou da Nicole que estava em ponto de bala para prestar pra Direito.Juntos, os dois realizavam autênticas jornadas aritméticas, químicas, físicas, históricas e gramaticais. Durante os intervalos para descanso, entre um lanche e outro, eles aproveitavam recordar os mais de sete anos de amizade, cheios de epsódios hilariantes.

Não adiantava, eles até podiam passar alguns tempos separados em virtude de problemas particulares, como namoros e afins. Todavia, sempre que se reencontrassem, seriam os mesmos inseparáveis companheiros de trajetória. Passaram juntos pelo 1.º e 2.º graus e agora se preparam para adentrar aos gloriosos portões da universidade.

Na noite que antecedeu o primeiro dia do vestibular, os dois pararam de estudar mais cedo e foram descansar. Entretanto, bem depois das onze horas o Arthur ainda não havia conseguido dormir. Pegou o seu "walkman", uma fita que tinha Legião de um lado e Caetano do outro e foi para o teto, com a intenção de aliviar a cabeça. Lá chegando, não se surpreendeu muito ao ver que a Nicole também buscara o Santuário para desencanar:
- Tá bebendo, Ni?
- Um vinhozinho chileno, de leve. Tava te esperando, pega um copo!
- Você é foda...
- Ah! Como eu tava com saudades desse "você é foda" que você fala rindo! Toma um gole pra desencanar.
- Sei não, Nic. Faz um tempão que eu não bebo, amanhã tem vestibular...
- Um copo, Tuta! Só para desencanar!
- Falô. Um copo...

postado por Randall Ferreira Neto às 22:38 | Comments:



(Mais um pedacinho do Capítulo VI, revisado e postado pela fiel escudeira do Tio Randas.)

Ao contrário do que imaginou, Ricardo não morreu após o porre de vinho, apenas teve uma crise mais séria, porém controlada com doses extras de insulina. O falecimento ocorreu um mês depois, em decorrência de seu estado cada vez mais debilitado. No enterro, Tuta olhou o caixão do avô descendo terra adentro e torceu para que ele estivesse acompanhado de duas "anjas" negrinhas e com um copo de vinho na mão.

"Vai embora para Pasárgada, Português! Me espere aí que ainda vou tomar um porre "daqueles" com você, ler Camões ao seu lado e ouvir suas estórias com seu agradável sotaque... — pensou Tuta ao derramar mais uma lagrima pelo avô querido.

O tempo passava, o vestibular se aproximava e Tuta ainda não havia tocado em um centavo da grana deixada pelo seu avô, que ele guardava em segredo. Ele e o Crustáceo continuaram "brothers" da confraria de Baco e o ambiente feminino do Objetivo era bem mais agradável que o do Pré-Médico. E foi no Objetivo que surgiu alguém capaz de fazer o Tuta (oh) namorar!

A menina era uma deusa? Não. Era bonita, mas o Tuta já havia pegado outras mais gatas. Era um poço de cultura? Pelo contrário, estudava no primeiro ano no Objetivo, não gostava de ler e xingava seus pais quando eles ouviam MPB. Para piorar, era riquinha e de família tradicionalíssima, direção do Country Clube e tudo mais.

Somente a capacidade do Arthur em surpreender as pessoas e sua inimaginável necessidade de ser "do contra" justificavam tal namoro. Além disso, certas circunstâncias levaram-no a namorar aquela menina que não parava de lhe encarar no show do Kid Abelha.

Os olhares eram cada vez mais incisivos e Tuta tentava se lembrar de onde conhecia aquela gatinha. "Será que é mais uma amiguinha do Oscar" — animou-se Tuta ao ir chegando vagarosamente mais perto dela.

O grande lance de conhecer uma menina num show é que o barulho do som torna a conversa preliminar vazia e enchedora de lingüiça — que rola antes do beijo — totalmente desnecessária. Enquanto que numa festa rola todo aquele protocolo: nome, idade, escola, turmas, irmãos, esporte e lugares que frequenta; num show esta lista é reduzida ao nome e olha lá.

Entre o Tuta e a Daniela, o que estava imperando era a inconfúdivel linguagem dos gestos ousados e olhares convidativos. Nessa situação, a falta do que falar ajuda bastante e abrevia o caminho para o esperado e planejado beijo. Daí para frente, eles trataram de aproveitar o show a dois e descobriram que ele tinha 17 e ela 15, enquanto a eterna musa Paula Toller entoava os inesquecíveis versos de Fixação, Educação sentimental e Os outros.

Terminado o show, ela recusou a carona de volta com a justificativa de que o pai iria busca-lá. Logo, sem qualquer compromissso, despediram-se naquelas de "eu não te ligo e você não me telefona", ou seja, mais uma ficadinha ocasional para a carreira de Arthur.

No dia seguinte, um sábado, devido a ausência total do que fazer, Tuta passsou na casa do Crustáceo e os dois foram morgar no shopping. Chegando lá, Tuta viu a Daniela, a menina da noite anterior:
- Olha lá, Crustáceo! Tá vendo aquela loirinha de verde?
- A Daniela, irmã da Verônica?
- Ela chama Daniela, mas eu nem sei se tem irmã. Eu "peguei" ela no show do Kid Abelha.
- Cascata! Todo mundo cai matando em cima dela e ela vai dar moral para um alcólatra inveterado de péssima fama como você?
- Parece que você não me conhece. Eu ia mentir um negócio desses? Ó, ela me viu e tá vindo para cá.
- Vamos ver qual é a reação de mais uma de suas vítimas.
- Vai querer checar se nós estamos namorando. Corta o papo que ela está chegando!

Mas, para satisfação do Crustáceo e decepção do Tuta, ela falou um "oi" dos mais frios, acenou com as mãos levantando a sombrancelha, e passou direto. Tuta ficou meio passado, tentando entender o que saíra errado, enquanto o Crustáceo lhe fulminava com o mais cínico dos olhares.

Ele nem tinha ficado muito fã da menina, mas a atitude dela o deixou meio com necessidade de ficar com ela de novo. Era uma situação inusitada e requeria alguns cuidados extras, talvez até um telefonema ou um cartão.

No domingo ele a viu na La Basque, o novo "point" da moçada, mas ela agiu com a mesma naturalidade. Na segunda-feira, ele descobriu que ela também estudava no Objetivo — isso facilitaria as coisas. Na terça, Tuta ignorou um convite de uma de suas amiguinhas para ir a casa dela, onde ela estava sozinha! Algo muito estranho tava acontecendo com aquele irremediável canalha.

A semana passou e ele nem conseguiu estudar direito, só lembrava da loirinha do show do Kid Abelha. Sábado e domingo ele a viu nos mesmos lugares de sempre e após um porre com o Crustáceo, este matou a charada:
- Tuta, você tá apaixonado!
- Viaja não, Cristiano!
- Tá na cara, "brother"! Essa semana você só falou nessa menina. Sábado no shopping uma menina tava te comendo com os olhos e você nem deu moral. Hoje, lá na La Basque, você encarou a Daniela o tempo todo, tô te sacando. E tem mais: quando um cara chegou para conversar com ela, você ficou mordendo os lábios e abrindo e fechando a mão. Quem te conhece, Arthur, sabe que é o seu tique característico de quando você está nervoso.
- Tô dando bandeira, né?
- Bandeira? Olha sua cara, Tuta! Seu olho até brilha quando você ouve o nome dela.
- Sem essa! Relaxa que amanhã eu preparo o bote!
- Acho que vou perder meu companheiro de farra! Vai nessa, Tuta!

E ele começou a imaginar como é que abordaria a tal menina que lhe causava aquele estranho frio na barriga quando a via. Dentre as milhões de alternativas possíveis, ele escolheu uma: comprou o disco do kid abelha ao vivo e escreveu no encarte: "só tenho ouvido a esse disco pra ver se, de repente, você aparece do meu lado de novo. Arthur."

Parece meio brega, mas ele estava se lixando pra isso. Ele foi com o Crustáceo na casa dela e entregaram o disco para a empregada dar para a Daniela. A partir de então, Tuta começou a quardar os efeitos de sua arriscada, porém necessária, atitude.

Dois dias depois, ao chegar do recreio, abriu seu caderno e viu escrito na contracapa:
"Já conheci muita gente
gostei de alguns garotos
mas depois de você,
Os outros são os outros..."
(Kid)
Daniela
-Yes ! — berrou o Tuta no meio da aula, olhando para Nicole — que também sabia da estória — e fazendo sinal de positivo.

Tomando toda a coragem do mundo, devido ao seu estado de completa sobriedade, ele foi falar com ela ao final da aula, em frente ao portão do colégio:
- Oi, Daniela.
- Oi, Arthur.
- Tudo jóia?
- Tudo, e você?
- Tranquilo, e aí?
- E aí o quê?
- É... curtiu o disco?
- Muito! Tava doida para comprar.
- Só...
- É... Você viu seu caderno?
- Hum-humm... massa!
- Massa?
- É, muito dez! Daniela, eu...
- Pode me chamar de Dani.
- Tá. E você pode me chamar de Tuta.
- Tuta?! É engraçado:Tuta.
- Apelido de família.
- Ah!...

Só então Tuta percebeu o quão desnecessária estava sendo aquela conversa "de esperar ônibus na rodoviária". Dali a pouco ela iria embora e ele perderia a oportunidade de estabelecer um segundo contato mais incisivo. Por falta de argumentos verbais convincentes, ele partiu direto para ação.

Olhando aquela menina que, indubitavelmente mexia com seu coração, Tuta largou seus livros no chão e a beijou na porta do colégio, sem que ela oferecesse a menor resistência. O que eles não contavam era com os aplausos da platéia liderada pela Nicole e pelo Crustáceo.

Interromperam o beijo e ficaram se olhando em silêncio, antes de começarem a rir simultaneamente. Ele segurou a mão dela e deu mais um beijinho rápido, pois a Nicole estava lhe chamando para ir embora:
- Tchau, Dani, me liga! Meu telefone é...
- 224-2931.
- Você sabia?
- Hum-hum! Vai lá no Dançarte hoje, eu tenho aula às cinco.
- Falô.

Ir no Dançarte já significava algum compromisso, mas ele tava afim de ir. Deu um beijo de despedida e foi em direção ao carro da Nicole, que perguntou:
- E aí, Tuta?
- Mmaaassssa!
- Esse seu massa... Mais uma de suas vítimas?
- Não, Ni. Acredite ou não, agora eu tô numas de namorar sério.
- Quero até ver...

Tuta não ligou pras desconfianças da Nicole, pois o fato é que ele estava cansado das bebedeiras e farras, estava afim de dar um tempo e ver qual era a onda de namorar sério. Em meio a esses planos e pensamentos, ao chegar em casa, ele percebeu que havia esquecido os livros no chão do colégio...

Tuta foi no Dançarte aquele dia e descobriu que a Daniela já o sacava no colégio até mesmo antes do show, mas ficara com o pé atrás devido a fama pouco recomendável que ele possuía dentre as meninas da mesma idade que ela. Arthur elaborou algumas justificativas convincentes e a fez acreditar que reamente mudara e estava afim de namorar sério com ela. E estava mesmo, pois dera um tempo com a bebida e agia como num namoro convencional, porém, sem os requintes de caretice de seu irmão mais velho.

O namoro dele impulsionou também o Crustáceo numa relação monogâmica, com uma amiga da Daniela, tão seriamente quanto o Arthur. Assim, dois bêbados inveterados estavam curados sem ter que passar pelos Alcóolatras Anônimos.

Tuta e Dani se viam no colégio, no Dançarte, no shopping, cinema e La Basque. Estudavam juntos à tarde, andavam de bicicleta e assistiam filmes no vídeo. Ambos curtiam rock nacional e ele começou a aplicá-la no Caetano, Chico e Gil; vagarosamenrte também, iniciou-a no prazer da leitura, onde ela se mostrava interessada.

Quando completaram um mês, Tuta permitiu-se a um momento de romantismo bundão e mandou flores para ela. Ela retribuiu com o disco "Dois" do Legião, que Tuta adorou, com especial destaque para as simplesmente perfeitas Tempo Perdido, Quase sem querer e Índios.

Eles nunca brigavam e o temperamento comedido dela parecia que o contagiava, pois até almoçar com os pais ele passou a almoçar. Todos notavam a mudança no comportamento dele, curtindo o novo Arthur, menos revoltado. Sua mãe não cabia em si quando soube que seu filho tava namorando a Daniela Pacheco Viana, filha de uma das melhores famílias de Goiânia. Arthur nem ligava para isso, aliás, preferia ignorar a família dela. O máximo que ele cedia era ir domingo pela manhã ao Country.

postado por Randall Ferreira Neto às 23:22 | Comments:



(Mais uma parte do Capítulo VI. Se você chegou agora, vá até o fim da página e comece a ler de baixo para cima — estamos providenciando um arquivo decente.)

A princípio parecia que seu pai havia tomado jeito, mas Tuta não perdoava a mãe ter aceitado tão pacificammente a coroa de chifres. Ele gostava muito mais dela do que do pai, mas não morria de amores por nenhum dos dois. Ele se distanciava cada vez mais da família, bebia muito e não dava a mínima pro vestibular. Quando o pai se aventurou a lhe perguntar para quê ele iria prestar, ouviu:
- Não é da sua conta! É o meu avô Luís quem paga a minha escola, é a ele que eu devo satisfação.
- Mas eu sou o seu pai.
- Te garanto que não fui eu que escolhi.

E Sérgio achava melhor ficar quieto, pois não tinha como discutir com o filho de uma maneira minimamente razoável, e ainda tinha que aceitar resignado ao fato do sogro rico pagar a escola dos filhos.

Tuta não tinha muitos laços com seu avô Luís, apesar dele pagar a sua escola. Ele era chegado do avô Ricardo, um português gordo cheio de estórias para contar. Quando não tinha muito o que fazer, Tuta ia para a casa do avô, comer pão de queijo da avó e ouvir o Português contar casos com seu inconfudível e agradável sotaque.

Os irmãos de Arhtur preferiam ir puxar o saco do avô rico, com conseguências finaceiras mais satisfatórias, mas ele não tinha saco para ouvir o avô contar como expandiu seu latifúndio. Apesar da grana, Tuta achava que seu avô cheirava bosta de vaca e preferia ouvir o Português contar as hilariantes estórias de sua terra natal.

E Tuta estava indo com maior freguência na casa do avô Ricardo, depois que o estado de saúde dele havia piorado bastante em virtude da diabetes. Ele ficava muito triste ao ver o avô perdendo a vitalidade de outros tempos e não se surpreendeu ao ficar sabendo que estava nas últimas.

Ele foi visitá-lo e ao chegar lá viu o largo sorriso do avô:
- Arthur, você não se cansa de vir ver esse velho?

Tuta imaginou o quanto ia sentir falta daquele sotáque Lusitano:
- Não, vô. Não canso, não. Eu quero ouvir a estória da negrinha que o senhor comprou em São Paulo.
- De novo?
- De novo!
-Ah! Era uma beleza aquela mulatinha! Como era quente! Seu avô já deu muito trabalho. A primeira vez que eu passei mal por causa da doença foi numa putaria e elas cuidaram de mim e vieram me trazer em casa. Sua vó as expulsou de casa com a vassoura.
- Que ingradidão!

O velho era um livro ambulante e Tuta nem via o tempo passar. Ele era um ¿sexolátra¿ compulsivo, não podia ver uma negrinha dando sopa, o sangue do Português fervia. Tuta não herdara do velho essa preferência irrestrita pelas mulheres negras, mas sua ironia e sarcasmo era claras demonstrações de hereditariedade herdada do velho.

Entre um caso e outro, Tuta ouviu seu avô contar que, em função da diabetes, não tomava um bom vinho do porto há 8 anos e não queria morrer sem beber aquele líquido sagrado.
- Eu já vivi demais, Arthur, já não espero quase nada da vida. Tudo que eu queria era um generoso gole de um 'porto'. Seria a minha passagem para os céus, meu filho. Uma vida de trabalho, dedicação, amor e farras seria fechada com chave de ouro um gole de 'Ferreirinha'.
- Mas é suicídio, vô.
- Não. É apressar a vontade de Deus da maneira mas deliciosa. Seria como proporcionar as minhas papilas gustativas um orgasmo múltiplo, depois de sujeitá-las por tantos anos à rigidez de um regime diabético. Um gole de vinho do porto...

Ao ver o brilho nos olhos do velho, Tuta não hesitou: foi à uma importadora e comprou uma garrafa do vinho favorito de seu avô e levou para ele, sem nenhuma dor consciencial:
- É isso que o senhor quer? — indagou Arthur, exibindo o 'Porto'.
- Você trouxe, Arthur?
-Sabe, vô, eu não tenho o costume de julgar ninguém e sou altamente favorável ao livre arbítrio. A escolha é sua, eu só estou fornecendo o instrumento, não vou te obrigar a tomar.
- Você entende as coisas. Nessa fase da vida em que cheguei, pouca coisa me importa, muito menos a porra dessa maldita doença! O que me importa agora é tomar um porre de vinho e ir embora daqui.
- O senhor não sabe como eu queria mudar essa sua decisão, vô. Mas acho que minha opinião é bem menos importante que o prazer que o vinho vai te dar...
- Gozado como são as coisas, Arthur. Eu e você temos nomes de reis ingleses. Quanta pretensão de um padeiro português colocar o nome do filho de Ricardo. Em homenagem a Ricardo coração de leão, o Rei das Cruzadas. Você tem o coração maior que o de um elefante e tomou uma autêntica atividade de rei. Vamos secar essa garrafa, Rei Arthur!
- Claro, "my lord".

Tuta abriu a garrafa e serviu dois copos.
- Vamos brindar a que, vô?
- A todas as bucetas do mundo! Pode ter certeza que eu vou lembrar desse teu gesto por toda a eternidade!

Começaram a beber vagarosamente, saboreando o "néctar dos deuses", como dizia o avô Ricardo. Este pediu que Arthur abrisse uma gaveta e pegasse uma caixa; Arthur pegou e entregou ao avô, que respondeu:
- É seu, Arthur. Abre.

Tuta abriu e assustou-se com o conteúdo da caixa:
- Vô, aqui deve ter...
- Mil e oitocentos dólares! São seus. É muito pouco pelo que você fez, mas é tudo que juntei sem saber para que. A sua vó receberá uma aposetadoria estável, não se preocupe.
- Vô... São 1.800 dólares, eu nunca vi tanta grana na minha frente.
- Tá vendo agora e o dinheiro é seu! Só me faça um favor: gaste com algo que valha a pena, dê orgulho ao seu avô. Tome porres, vá a putarias, viaje, compre um négocio daquele esporte esquisito que você faz no mar, qualquer coisa. Divirta-se, faça o que eu faria se tivesse a sua idade.
- Valeu, vô. Sem querer abusar e aproveitando que o senhor está dando presentes, eu queria pedir mais uma coisinha.
- Fale!
- Eu queria os seus livros do Fernando Pessoa e os dos Camões em Português Arcaico.
- Eu sabia! Você sempre gostou de ler os ¿mestres¿ quando vinha aqui. São obras-primas e vão estar em boas mãos, pode levar.
- Yes! Valeu, vô!
- Já que você falou em poesia, eu me lembrei da minha favorita, e é de um brasileiro.
- Qual é?

Assim que o avô começou a recitar, Arthur foi pêgo de surpresa:
- "Vou me embora pra passargada lá, sou amigo do Rei
Tenho a mulher que eu quero, na cama que escolherei!¿

Era a poesia favorita de Arthur, também, de Manuel Bandeira. Começaram a recitar juntos, com Arthur se deliciando ao ouvir o avô emprestar o seu sotaque ao "intinerário de Pasárgada". A poesia era a cara do velho e Tuta pôs-se a imaginar como seria a pasárgada do avô: provavelmente seria como na poesia, um lugar com "prostitutas bonitas pra gente namorar".

Embalados pelo vinho, os dois terminaram a poesia quase gritando:
"E quando eu estiver triste
triste de não ter mais jeito
quando a noite me der
vontade de me matar
lá, sou amigo do Rei
terei a mulher que eu quero
na cama que eu escolherei
vou me embora pra Pasárgada!"

Cairam na gargalhada, secaram a garrafa e se despediram. Ricardo não cabia em si de tamanha felicidade e Arthur quase não acreditava que possuia 1.800 dólares em seu poder para fazer o que bem entendesse.

postado por Randall Ferreira Neto às 16:45 | Comments:



(Continuação do Capítulo VI. Se me permitem uma pequena interferência, aqui o livro começa a ficar de um jeito que eu até me orgulho de tê-lo escrito)

Ao entrar no seu quarto, Tuta viu seu irmão chorando compulsivamente. Numa tentativa de consóla-lo, apesar da cena do irmão chorando ser um tanto agradável para ele, Tuta falou:
- Que isso, Serginho?! Daqui 4 anos tem mais. Copa do mundo é assim mesmo. Não grila não.
- Não é só com a copa não, Tuta. São mil coisas.
- Penélope ?
-Não. Eu e a Pê vamos bem. O grilo é outro, eu tô precisando conversar com alguém.
-Pode se abrir comigo. A Nicole é uma conselheira bem melhor, mas eu quebro o galho.
- Quando é que você não está bêbado, hein Tuta ?
- Na hora em que eu acordo. Aí eu tô de ressaca, mas não tem grilo não. Eu tô bêbado, mas tô consciente. Pode falar.
- A mamãe veio falar comigo. A barra aqui em casa tá pesada. Parece que eles vão se separar.
-Ah! É isso? Eu já sabia.
-Como?
-Pô, Serginho! O papai passa o dia todo dormindo, enquanto a mamãe trabalha o dia inteiro e faz malabarismo com a grana para não faltar no fim do mês. A Zila parece telefonista de mafioso, inventando mil lugares onde o papai possa estar, quando ele está bodado no quarto. O Diplomata´s parou de dar lucro há muito tempo e agora tá dando prejuízo fudido. Talvez vão vender o apê de Camboriú. Além do mais, se é que isso tem muita importância, a mamãe está sendo corneada.
-O meu pai tá chifrando ela ?
-3x4. E não é de hoje, tem muito tempo, mas parece que só agora ela descobriu, de tão panaca que é. Acho que o negócio é sério.
-É porque que quem tá me contando é meu irmão mais novo que quase não para em casa?
-Por que você, Serginho, só vê o lado bom das pessoas, não enxerga a falsidade que fica camuflada. E também não tem mania de ouvir atrás da porta e pegar a extensão do telefone.
-Tá explicado. Você sabe de tudo?
- Quase tudo. A mamãe tá de saco cheio e pediu arrêgo. Acho que é definitivo.
- E a gente, Tuta? Como é que fica?
-Sei lá como é que a gente fica. Só sei que vai arrochar. Você fica querendo por umas rodas e uma sonzera no carro, o bostinha quer um video-game novo e viajar para Disneylândia e eu quero uma prancha nova e grana para passar um mês pegando umas ondas em cambú. A gente só atrapalha, ao invés de ajudar. Quer saber ? Eu tô pouco me fodendo se eles vão se separar ou não, por mim tanto faz.
-Não fala besteira, Tuta. Vai desestruturar a nossa família.
-E daí ?! Você tem cabeça boa, eu cago e ando e o Oscar...Bom, o Oscar vai sentir a barra, vai ficar griladíssimo. É, se eles se separarem vai ser uma boa. Chega de viver de aparência, almoços com a família nos domingos e festas no Country Club.
-Você tem ódio da humanidade, Tuta ?
-De grande parte dela. O restante eu desprezo. Tô brincando, não é bem assim, mas aqui em casa eu não ligo para ninguém.
-Ninquém?
-A Zila é gente fina.
-Acho que a mamãe tava certa quando pensou em te levar a um psicólogo. Você é um alto astral só na rua, todo mundo te elogia, e aqui em casa vive emburrado. Ela vive reclamando que você não conversa com ela.
-Papo furado, Serginho! Ela é que só tem tempo para elogiar os seus feitos. Nunca prestou atenção em mim, pois eu não sou como o bom menino que não dá contrariedades. Nem ela nem o papai nunca vieram conversar comigo. Ele eu agradeço, porquê o papo aranha dele só o Oscar tem paciência pra aguentar. Eu não tô nem aí pros dois, só sei que, errado é eles continuarem juntos.
-Você tem que mudar seu jeito, Tuta.
-Você é que tem que mudar o seu! Um cara que sempre foi o melhor aluno, ao invés de fazer um grande curso, vai fazer administração de empresas. Para administrar o quê? Os porres do meu pai e a caretice da minha mãe?
-É uma profissão de futuro.
-Muito futuro. Quem sabe você não vai administrar a massa falida do Diplomata´s? Cai na real, Brother! A nossa geração é de pais separados. Os pais da Ni, do Crustáceo, todo mundo. Se eu fosse o Veríssimo, escreveria uma crônica sobre isso . É a realidade, Serginho, não seu mundo utópico de lar-doce-lar.
-Então você acha que eles se separam ?
-Se forem sensatos, sim. Mas eu acho que eles não tem capacidade para tanto. Pra te falar a verdade, eu passaria a respeitar bem mais a mamãe se ela desse um pé na bunda dele...
E Arthur estava coberto de razão, pois uma semana depois, ao chegar do colégio, viu seu pai sentado no sofá. A bolsa de gelo na cabeça, o copão de coca e o envelope de Neosaldina indicavam uma evidente e indesejável ressaca. Vendo Tuta chegar, falou:
-Pronto ! Agora que todos chegaram, vamos almoçar.
-Você vai nos dar a honra de sua presença, papai ?
-Eu não tenho tempo para suas ironias, Arthur. De hoje em diante eu vou almoçar todos os dias com vocês. Existem maus-hábitos nesta casa que presisam acabar e eu já vou dando um exemplo. Tenho uma conversa séria para ter com vocês.
Tuta não gostou nem um pouco do tom de voz que o pai imprimiu à "conversa séria". Olhou para o Serginho e este fez um gesto com a cabeça de quem tambem não estava entendendo. Assim que todos estavam sentados à mesa, Tuta falou:
-Então encurta a conversa séria, que eu tô com fome.
-Infelizmente, sua fome terá que esperar um pouco, Arthur. O negócio é o seguinte: Eu e a mãe de vocês passamos por uma fase muito difícil e pode ser surpresa para vocês, mas nós chegamos a pensar em separação.
Ele fez uma pausa para analisar a reação dos filhos : Oscar se mostrava assustado, Serginho fingia surpresa e Arthur descansava a cabeça na mão, com o cotevelo apoiado na mesa e olhando pro pai, com acentuado desânimo. A atitude de Arthur o perturbou um pouco, mas ele prosseguiu :
-Porém, nós ponderamos e resolvemos mudar de idéia. Por vocês, que são as coisas mais importante de nossas vidas, nós resolvemos tentar salvar o casamento...
-Patético - interveio Arthur - Eu vou nessa, que não sou obrigado a ver essa cena de novela mexicana aqui em casa.
-Senta já, Arthur! - Berrou o pai, dando um soco na mesa.
- Sento porra nenhuma!!!!! - Respondeu Arthur, berrando mais alto e dando um soco ainda mais forte na mesa - Se vocês quiserem continuar com esse ritual de babaquice, não contem comigo. Eu não vou fazer parte desse teatro tragicômico! Família almoçando unida é muito para minha cabeça. Me embrulha o estômago e dá ânsia de vômito, altamente impróprio para a hora do almoço.
- Babaca!
- O quê que você falou, Oscar? Eu não entendi direito, repete ! Ou você acha só porquê o papai e a mamãe estão aqui eu não encho a sua cara de pancada ?
-Eu duvido que você tem coragem de encostar a mão nele na minha frente e na frente da sua mãe.
-Então pede para ele repetir e você vai ver. Repete, seu bosta !
-Fala, Oscar ! Pode falar ! - falou seu pai, mas Oscar só olhava para o irmão, que o encarava com aquela inconfudível expressão Pscótica - Repete, Oscar! Você é homem ou o que?
Quando Oscar pensou em repetir, viu Tuta fechando a mão e mordendo o lábio, uma clara demonstração de que estava perdendo o controle. Os olhos ainda o desafiavam e a lembrança da última surra o levou a desistir :
-Eu não falei nada.
-Tá vendo, pai ? Nem seu filho querido confia mais em você. Você está definitivamente acabado.
-Acho que eu mesmo vou te bater.
-Acho que não, papai. Se você fizer isso, vou direto no juizado de menores e destruo a sua vida. Eu já vou nessa.
-Pelo amor de Deus, senta, Tuta.
-Não tô nem te vendo mãe, tchau para vocês, bom apetite.
E Tuta acabou com todo e qualquer clima de reconciliação famíliar, mas seus pais reataram relações matrimoniais após o episódio. E apartir daquele dia, o Tuta deixou de almoçar na mesa com a família. Ou ele comia na Nicole, ou na rua, ou na cozinha com a Zila, depois que a galera comia.

postado por Randall Ferreira Neto às 09:33 | Comments:



VI
NA MARCA DO PÊNALTI


Emoção, apreensão, torcida! Arthur estava com o coração na boca antes do jogo Brasil x França pelas quartas de finais do mundial do México. Ele e toda a galera ¿ composta pelo Júnior, crustáceo, Serginho, Penélope e Oscar - estava na casa da Nicole, engrossando o coro da torcida brasileira pelo tão esperado tetra.
Naquele dia ele tomara a surpreendente decisão de não beber. Surpreendente mesmo, pois até o dia do jogo, ele não se lembrava de um dia na copa que tenha passado sem tomar uma.
O terceiro ano do Objetivo era o canal: mil gatinhas e milhões de barangas compunham o novo ambiente estudantil do Tuta, empolgadíssimo com o novo colégio e desencanadaço com o vestibular.
A copa do mundo de 86 era um grande pretexto para ele deixar o vestibular ainda mais de lado, pois suas atenções estavam inteiramente voltadas para a copa.
E aos 30 minutos do jogo contra a França pelas quartas de final, o Zico entra no lugar do Júnior. Na primeira vez que pega na bola, faz um lançamento e coloca o Branco na cara do gol, que passsa pelo goleiro e é derrubado: pênalti indiscutível, euforia na galera:
-É o Arthur! Tem que ser o Arthur para bater! -berrava Tuta.
-É lógico que o Zico vai bater - concordou Nicole.
-Tem que ser o Zico! O Brasil inteiro espera isso dele! - endossa Serginho.
-O Tuta tava certo, quando Zico entrasse, a história era outra: lá dentro, Galinho! - empolgou-se o Crustáceo.
-Tem que ser o Arthur, né Tuta?
-Cala a boca, Oscar ! Ninguém te perguntou nada.- advertiu o Tuta - vai xará, faz esse, pelo amor de Deus! Faz, caralho!
Zico correu para a bola e 130 milhões de olhos ¿verde e amarelos¿ grudaram na tela, o País estava parado. Zico chuta: nas mãos do goleiro! Silêncio. Decepção. Raiva. Um sem número de sentimentos misturava-se nos corações de brasileiros, menos em um.
Tuta olhou para o pessoal e disse:
- Eu sei como é isso. Pênalti é foda...
E levantou-se indo embora, ao que a Nicole interveio:
- Não vai terminar de assistir o jogo, Tuta? É Copa do Mundo!
-A Copa acabou. Pra mim acabou...
Virou as costas e foi para o teto chorar. Tuta não perdeu só a Copa, perdeu um ídolo e a paixão pelo futebol.
A imagem do pênalti do Zico confudia-se com o pênalti que ele mesmo perdera na oitava série. Em ambos os casos, os goleiros saíram vitoriosos e Tuta imaginava como o Arthur devia estar se sentindo.
Uma hora depois, a Nicole chegou no teto, chorando e com a bandeira do Tuta:
-Perdemos, Tuta.
-Eu sei.
-Como? Virou paranormal?
-Claro que não, Ni. Olha o silêncio lá em baixo. A rua está quieta, não estourou nenhum foguete. Cadê o carnaval? A buzinação? Nada. Acabou. Só daqui a 4 anos. E O QUE É PIOR, sem o Arthur.
-Sei não, se vai ser pior. Pênalti não se perde.
-Não se perde o cacete! Foi você mesma que me consolou quando eu perdi aquele pênalti na oitava série, aqui no satuário, lembra?!
-Lembro. Mas não era uma Copa do Mundo.
-Para mim era como se fosse. Eu tenho aquela medalha de bronze guardada até hoje. Sem falar nos altos pesadelos que e tenho com aquele maldito pênalti perdido. É foda, Ni.
-Eu sei que é foda, mas continuo achando que pênalti não se perde.
-O Brasil perdeu na prorragação?
-Não, foi para os pênaltis. O Julio Cesar e o Sócrates erraram. O Platini errou para eles também, mas foi só.
-O Arthur bateu?
-Bateu e fez. Mas quando precisou de verdade, ele errou. Se fosse o Roberto dinamite, a gente tava na semi-final.
-O seu Roberto nem foi convocado.
-Pelo menos não tirou o Brasil da copa !
-Qualé, Nicole?! Você tá falando asneira! E só pra me irritar. Ás vezes eu acho que você tem prazer em fazer isso. Eu torço pro flamengo e você pro vasco. Curto o Piquet e você se derrete pela bicha do Senna. Eu viajo para o sul e você adora o Nordeste. Sou Portela e você Beija-flor. Ouço Chico e você adora o Caetano. Falo que Legião é o que de melhor existe em termos de rock nacional e você diz que é Paralamas. Nem sei como é que a gente é tão chegado. O que é que a gente tem em comum?
- Adoramos beber! - Falou Nicole, tirando uma garrafa de meio-litro de whisky da bolsa.
-E tem mais, Ni. Nós dois estamos putos com a seleção e vamos afogar as mágoas. Evoé, Baco!
-Pode crer!
E começaram o esvaziamento da garrafa em tempo recorde. Depois de algumas doses do líquido santo e os dois nem se lembravam da copa do mundo e pênaltis perdidos. Desceram completamente travados e despreocupados.

postado por Randall Ferreira Neto às 15:42 | Comments:



Ele não notou nenhuma mudança muito significativa após adotar padrões tão radicais de higiene nos pés. Porém, ao dormir aquela noite, o Serginho percebeu que não havia mais algo de pobre no reino do seu quarto e o ar parecia inexplicavelmente puro. Mas a porra da luz continuava acesa...

E era assim que transcorriam os últimos meses de 1985 na vida do Arthur, da Nicole e de seus convivas. O Serginho namorava cada vez mais firme e levava a faculdade com a maior seriedade e brilhantismo, exatamente como tudo em sua vida. O Oscar começava a se revoltar com a facilidade com que Tuta descobria e pegava todas as meninas que ele gostava. O irmão não perdoava uma, levando a sério sua promessa. Invariavelmente, Arthur pregava na porta do quarto do irmão caçula cartas de amor escritas por meninas que o Oscar estava apaixonado e estavam ficando com o Tuta. O pior era quando Tuta revelava a essas meninas fatos poucos gloriosos da infância do Oscar. Este não tinha sossego e começava a sonhar com o dia em que Tuta fosse embora de casa para ele ter sossego e poder namorar uma menina sem que o irmão mais velho, bonitão e idolatrado pelas meninas bagunçasse seu coreto.

Por prazer mórbido ou necessidade de auto afirmação, Tuta continuava sacaneando seu irmão nessa área, envidando os maiores esforços possíveis pra descobrir quem era a menina que o Oscar estava a fim no momento, apesar das censuras da Nicole e do Crustáceo. Ele achava sacanagem demais com o Oscar e ela entendia que as meninas não deviam pagar o pato pelas desavenças do Arthur com o irmão.

A despeito da opinião deles, Tuta seguia sua sina de arrasar seu irmão e não há como negar que a satisfação que isso lhe dava era quase indescritível, além de deixar sua mãe possessa, fato este que também o agradava bastante. Mas não era só com as maldades do filho que Maria Clara andava preocupada. O fato do marido passar o dia todo dormindo era excusável quando a rentabilidade do bar possibilitava essa vida monástica. Porém, o Diplomata¿s já não era mais aquele, pois vinha enfrentando seríssimos problemas financeiros. Sérgio parecia não se preocupar muito, entendendo que tratava-se apenas de uma crise passageira, crise esta que já durava mais de dois anos.

Além do problema monetário cada vez mais grave, na cabeça de Maria Clara pairava a dúvida atroz e cada vez mais certa de que um delicado par de chifres começava a enfeitar-lhe a testa. Logo, o descontentamento financeiro e o provável adultério do marido a incomodavam e contribuiam para o clima cada vez mais pesado e instável na casa. Contudo, Maria Clara e Sérgio tentavam esconder dos filhos os maus bocados que estavam passando. Se bem que não era necessário muito esforço, pois os três tinham outras preocupações na vida e não dedicavam muito tempo analisando as circustâncias do matrimônio decadente dos pais.

Serginho começara a trabalhar e começava a pensar convictamente em casamento. Sem que os pais soubessem, ele e a Penélope abriram uma poupança conjunta. Oscar estava indo para o segundo grau e seguia os passos dos dois irmãos: pré-médico. Desde já ele começava a se preparar para o vestibular de medicina, questão prioritária pra ele.

Por falar em vestibular, Arthur tinha que começar a se preocupar com essa bosta. Na verdade, ele queria ser surfista e morar em Camboriú e, infelizmente, não havia vestibular prá isso. A Nicole, por outro lado, parecia bem mais preocupada que ele com o vestibular:
- Você tem que se decidir, Tuta! Você desenha pra cacete, por que não faz arquitetura?
- Sei não, Nic. Arquitetura me parece coisa de gente que não é homem suficiente pra fazer Engenharia nem bicha o bastante pra fazer Decoração.
- Que papo furado e preconceituoso, Tuta. Você tem talento e capacidade, aproveita.
- Mas não tenho vontade. Eu ainda tenho o ano que vem inteiro pra decidir.
- Eu já me decidi!
- Eu sei, Nicole. Quem tem pai, mãe e namorado advogados não escolhe outra carreira.
- Não existe outro curso pra mim, Tuta. Eu tenho que fazer Direito de qualquer maneira.
- Nicole Rocha, a advogada! Será que você ainda vai me ajudar?
- Sei não. Se você for precisar de ajuda profissional, é melhor esperar seu irmão ser médico e especializar-se em psiquiatria.
- Ou então médico de fígado, pois eu quero beber todas na faculdade. Não vejo a hora de ficar livre do pré-médico.
- Eu também.

E foi a Nicole quem achou a solução para saírem do odiado colégio: os dois conseguiram dobrar os pais e foram parar no Objetivo. Ela achava que o 3.º ano do Objetivo era bom. Ele não resistiu à possibilidade de estudar num colégio onde ninguém sabia que ele era irmão do brilhante Serginho Freitas.

Ele foi pro Objetivo sem nenhum objetivo supremo ou projeto de vida para 86. Ele ainda queria aproveitar o restinho de 85, bebendo todas com o Crustáceo, conversando com a Nicole e pegando as gatinhas do Oscar. Apesar da grana curta, ele apertou o cinto e conseguiu ir pra Camboriú em janeiro com o Crustáceo.

Ondas, boites, um "caplaui" de verão, vontade de ficar, descrença de voltar, necessidade de comprar uma prancha mais nova... Tudo isso fez parte de suas férias, incluindo porres homéricos com o Crustáceo.

"Será que eu vou fazer Arquitetura? E o Objetivo, é legal? Eu vou fazer 17 e até hoje não fumei baseado. Também não sei se tô afim. O Serginho podia casar esse ano e o Oscar ir fazer um intercâmbio de 10 anos no Nepal. Acho que eu preciso começar a trabalhar. Não, não preciso começar a trabalhar. Talvez eu tenha que arrumar uma namorada e parar de beber. Hummm! Acho que não, beber é essencial. O que eu tô precisando mesmo é conversar com a Nicole, comer um bolo de chocolate da Zila e tomar um porre no "Lumiar". Será que o "Arthur" (Zico) vai jogar na Copa? Com ele em campo fica mais fácil. Mesmo com o pé-frio do Telê agente vai ser tetra no México. Com um gol do "Arthur"..."

Esse eram os descompromissados pensamentos de Arthur para o ano da copa do México. Ele colocava a maior fé no Zico para aquele mundial. Nada lhe tirava da cabeça que 86 iria arrebentar...

postado por Randall Ferreira Neto às 02:25 | Comments:



Um dia, o Tuta estava vendo televisão e o Oscar veio tomar as dores da Janaína:
- Tuta, a Jana quer saber por que você sumiu.
- Como sumi?
- Não liga pra ela e não atende as ligações dela.
- E por que eu deveria responder? Eu não tô namorando com ninguém, tá vendo alguma aliança nos meus dedos?
- Ela achou que tivesse rolando aluguma coisa, um lance... Ficou das mais griladas.
- Problema dela! Isso é que dá mexer com criança!
- Ela não é criança, e merece uma satisfação!
- Que tom de voz é esse, moleque? Me dá o telefone dela e pára de encher o saco!

Uma ligação e algumas palavras certas, pautando desculpas razoáveis foram suficientes para acabar com qualquer mágoa. Ela tava na dele mais do que nunca e um despretencioso cinema marcou a segunda ficada deles. Ele tentou se enquadrar, ligou algumas vezes pra ela, pintou na saída do Marista e falou com ela uns dois dias. Quando a Janaína estava no auge da empolgação, apareceu uma baranga da sala do Arthur que significava sexo fácil. Foi o fim do pré-namorinho inocente deles e o filho do meio desapareceu do mapa novamente.

Não que ele começou o namorar a baranga, não é bem por aí. O lance é que o Tuta continuava não se ligando a ninguém e estava chovendo na sua horta. Portanto, ele achava burrice a atitude "de Serginho", namorar sério numa época tão fértil. Só que ele não ficava muito em paz com a consciência em relação à Janaína. Quanto às barangas, tudo bem, pois elas só queriam Rock'n'Roll mesmo. Mas a coleguinha do Oscar era uma tremenda gata e vivia ligando e correndo atrás.

O grilo é que ele não conseguia cortá-la totalmente e sempre ficava um lance no ar. Até que num domingo fatídico ela o viu na sorveteria "Cyro's" com uma companhia de fama não muito respeitável. Assim que a viu, Tuta não sabia onde enfiar a cara. Tentou disfarçar e foi falar com ela:
- Jana!

Assim que ela virou-se, ele viu que os olhos dela estavam mareados e ela fazia grande esforço pra não chorar. Elaborou milhões de explicações, mas, olhando pra aquela loirinha de olho verde com cara de choro, ele só pôde abrir os braços e dizer:
- Foi mau ! Eu ia te contar...
- Cala a boca, Tuta! Volta pra lá, senão tua amiga arruma outra carona pra levá-la ao motel.

Putz! Desta vez ela pegou pesado. E ele, que não apreciava nem um pouco situações que o deixavam sem reação, meteu o rabo entre as pernas e voltou pra sorveteria, com a consciência pesando um milhão de toneladas. Não foi pro motel com a tal menina e, pela primeira vez, teve alguma dificuldade em dormir por causa de alguém.

No outro dia, ele comentou o ocorrido com a Nicole durante a aula e ela contribuiu ainda mais para a sua dor conciêncial, ao taxar como "sujeira" o que ele fez com a Janaína. Foi, foi sujeira, mas ele tava afim de limpar, se houvesse jeito. Ele nunca a encontrava em casa quando ligava e ela ainda rasgou uma cartinha que ele mandou através do Oscar. A menina tava pau da vida.

Depois do 5º bilhete que ela nem se dignou a ler, o Oscar falou pra ele em mais uma conferência no antes indevassável quarto:
- Não adianta, Tuta. Nessa você se fudeu. Ele tá puta com você pra valer!
- Essa sua amiguinha é neurótica. O quê que eu fiz? Por acaso agente tava namorando?
- Corta essa, Tuta! Até você sabe que deu mancada. Senão, não estaria tão empenhado em limpar a sua barra. Só que você rodou, gostosão!
- Poso saber porque, ô montinho de merda?
- Hoje, quando eu fui entregar o bilhetinho pra Jana, ela rasgou e falou que nunca, preste atenção, nunca mais fica com você. Dançô...

E um forte tapa de Arthur acertou a nuca do Oscar, seguido de um cascudo e uma rasteira. Com Oscar no chão, Tuta se agachou, apertou com bastante força o pescoço do irmão e começou a falar bem baixo, quase sussurrando no ouvido do irmão caçula:
- Escuta aqui, sua lombriga de calango: você tá mal-acostumado. Não é por quê jogou a gatinha na minha mão que pode ir entrando no meu quarto pra curtir com a minha cara...

Oscar tentou prostestar:
- Tuta, eu tô sem ar...

Artur largou a garganta do irmão e desferiu-lhe dois tapões na orelha, que deixaram Oscar ouvindo todos os sinos do mundo:
- Cala a boca, moleque! Quando eu estiver falando você só escuta! Cala a boca! E aproveita que eu tô calmo e tô pedindo na boa: você nunca, preste atenção, nunca mais fale assim comigo, ouviu?
- Hum-hum...

Mais um tapa e um berro:
- Hum-hum o cacete! Sim, senhor, ouviu?
- Sim, senhor.
- Eu não ouvi!
- Sim, senhor!

Mais um tapa:
- Quem mandou você gritar comigo?

Ao olhar a cara de psicopata do Arthur, e temendo que sua fúria assassina prosseguisse, Oscar achou melhor ficar quieto e ouvir o irmão, que ia falando e dando-lhe petelecos na orelha:
- Você é um panaca, Oscar. Não saca porra nenhuma do que tá rolando; a sua amiguinha ainda tá na minha, só que tá com o cotovelo doendo. Por isso, ela tá fazendo cu doce, mas eu pego ela de novo. Vamos apostar? O quê que tá valendo? Uma carteira da "OP", tá bom?

Oscar só balançou a cabeça afirmativamente, ao que Arthur prosseguiu:
- Em uma semana, se eu não ficar com ela de novo, eu te dou uma carteira. Se eu ficar, pode ir preparando a grana...

E Arthur estava confiante, pois ele havia vislumbrado a possibilidade de reconquistar a Janaína: flores. Nenhuma menina fica impassível ao receber flores, ainda mais quando se tem 14 anos e o remetente é o cara em que ela tinha dado o primeiro beijo e tava apaixonada, "pero" ligeiramente magoada.

Tá certo que mandar flores era algo que Arthur relacionava imediatamente com o seu irmão mais velho, mas ele não tinha escolha, precisava jogar todas as suas fichas. E não deu outra, uma dúzia de rosas "champagne" e um cartãozinho meloso depois e a Janaína já não se mostrava mais tão irredutível. Como moça bem educada que era, ligou para agradecer as flores e o Tuta, aproveitando e ensejo, convidou-a para um cinema. Ela aceitou. Foram sozinhos e, mais uma vez, Arthur comprovava que a batalha não estava perdida e que a Janaína ainda estava na sua.

Porém, desta vez, ele estava disposto a levá-la a sério de verdade. Em outras palavras: ele queria namorar. Antes de pensar nisso, tinha umas contas a acertar com seu irmãozinho. Entrou em casa e foi direto pro quarto dele:
- Oi, Oscarito! Sabe de onde que eu tô vindo?

Sem tirar os olhos da tela em que ele travava uma batalha intergaláctica em seu Atari, Oscar respondeu:
- De onde?
- Do cinema. Sabe com quem?
- Quem?
- Janaína, uma gata da 8ª série do Marista. Conhece?

Silêncio. Oscar já não se concentrava no jogo. Apenas temia o que estava por vir:
- Acho que ela mudou de opinião quanto àquele lance de ficar comigo. Nunca, preste atenção, nunca mais duvide de mim, ouviu?
- Sim, senhor.
- Tá aprendendo. Ah! Quanto à carteira, eu prefiro uma roxa e emborrachada, tá?

. Ele ficou puto com o irmão, pois a Jana não merecia aquilo e uma carteira da "OP" custava uma grana preta, quase duas semanas de mesada! Mesmo sabendo que as consequências poderiam ser dolorosas, Oscar concluiu que estava passando da hora de aplicar uma vingança no irmão. E em grande estilo...

Após quase uma semana de comportamento adequado para um namoro, Arthur surpreendeu-se ao ir buscar a namorada oficial para levá-la à "Cyro's" e vê-la com um embrulho de presente. Ao invés de ficar animado, ele se preocupou, pois, mesmo sabendo que ela era apaixonada nele, uma semana era pouco para começar a dar presentes. Ela estava linda, o que não era novidade e ao vê-lo, deu o mais generoso dos sorrisos:
- Oi, Tuta. Tudo jóia?
- E aí, massa?
- Você e esse seu massa... toma, comprei pra você — e deu-lhe o embrulho.
- Valeu, Jana. O quê que é?
- Abre. Acho que você vai gostar.

Arthur abriu e não ficou dos mais satisfeitos ao ver o conteúdo: uma carteira emborrachada, roxa, da "OP". Antes dela começar a falar ele já havia sacado:
- Tomara que você goste, Tuta. O Oscar me falou que era o modelo e a cor que você queria. Seria sacanagem com ele deixá-lo gastar o próprio dinheiro, a culpa foi minha.
- Jana, eu...
- Economize suas desculpas, Tuta. Economize também as flores e os cartões. Eu gosto demais de você e não quero continuar me decepcionando. Some da minha vida, Tuta. Desaparece!

Ela bateu a porta do carro e voltou chorando pro seu prédio. Ele desceu e foi atrás dela:
- Jana! Espera!
- Você ainda tá aí? Qual é? Mais uma aposta, é, Tuta? A minha cotação subiu? Uma camiseta? Ou será que caiu e eu só valho um sorvete? Mesmo assim, eu ainda acho que valho bem mais que você!

Não havia mais nada o que falar de novo e, a bem da verdade, ele não sabia a que ponto valeria a pena argumentar. Sendo assim, ele entrou no carro e fez o trajeto de volta pra casa imaginando qual seria o meio mais doloroso de matar seu irmão caçula.

Ainda era dia, então ele passou na casa do Crustáceo e o chamou para tomar umas. Na verdade, eles tomaram todas e o Arthur chegou em casa por volta de nove e meia, com um destino certo: o quarto do Oscar. Pra variar um pouco, ele estava jogando Atari e ficou um pouco temeroso ao ver Arthur entrando no seu quarto e sentar-se ao seu lado na cama. Mais surpreso ainda ele ficou ao notar o tom de voz amistoso do irmão:
- Jogo massa, hein, Oscar!
- É.
- Você é craque!
- Tô batendo meu recorde. Faltam só mil pontos.
- Parabéns! Merece até um presente. Toma!

Ele atirou na cama a carteira que a Janaína lhe dera. Oscar desligou o Atari e se preparou para o pior, somente agurdando que Tuta assumisse novamente sua personalidade secreta de Zé-Porrada:
- Foi sujeira você dedar pra menina, viu, mano? Mas, fica frio, porque dessa vez não vai ter porrada, não. Eu já saquei a sua: você tá na dela e entrou numas de queimar o meu filme pra ficar com ela. Só que não vai rolar, não, seu babaca! Ela nunca vai namorar com você. Eu vou colocar todos os pregos do mundo pra você dançar. E não é só com ela, não. Qualquer menina que você agarrar vou ficar a fim, eu vou dar em cima pra valer, mandar florzinha, chocolate e o cacete de quatro. Não vou descansar enquanto não pegar todas as meninas que você for afim.

Artur falava calmo, como se estivesse tendo um papo informal com um amigo. A todo momento Oscar temia que a tranquilidade cedesse lugar à fúria e esta o conduzisse ao espancamento. Mas ele não perdeu o controle e continuou:
- Você nunca mais fale comigo. Nem olhe pra mim. Evite ficar no mesmo cômodo da casa que eu e nunca mais entre no meu quarto. A máfia costuma cortar o dedo indicador dos "cagüetas". Eu tenho vontade de cortar seu pinto, mas um viadinho como você não usa ele muito mesmo, né? Bichona! Só mais uma coisa: eu vou ficar com a Janaína de novo. E se você quiser apostar de novo, vai perder de novo ouviu?!
- Sim, senhor — respondeu um cabisbaixo e humilhado Oscar.

A promessa de Arthur foi levada a sério, pois a partir daquele dia, nunca mais deu um segundo de folga pro irmãozinho, pegando todas as meninas que Oscar se afeiçoava. Com a Janaína foi só uma questão de tempo, pois a menina pediu arrêgo numa festinha e cedeu às tentações do Arthur. Obviamente, ela só ficou com ele após ouví-lo jurar pela morte do pai que não havia apostado com o Oscar.

Mas não deu certo e Arthur continuava solitário. Barangas e menininhas alternavam-se em suas aventuras. Se estava muito bêbado e procurando sexo fácil: baranga! Se estava na fissura: menininha! O que ele sentia saudades mesmo eram dos papos com a Nicole e as bebedeiras com ela. Com certeza ela não aprovaria as canalhices que ele andava aprontando e passaria-lhe o maior sabão. Mesmo assim, era bom levar esporro da Nicole, ela sabia repreender. Daria uma ótima mãe, daquele tipo liberal-adepta do diálogo-fornecedora de conselhos. Eles ainda eram da mesma sala, mas não conversavam muito durante a aula. Se o Tuta sentia falta da Nicole, a recíproca era evidente. Até a mãe dela cobrava-lhe o fato do amigo não pintar mais por lá.

Há muito tempo ele deixara de ser o confidente-mór da Nicole, mas ela ainda depositava muita confiança nele. Tanto que, numa terça-feira de setembro, voltando de uma aula extra no final da tarde, ela o chamou para ir à farmácia:
- O quê que você vai comprar lá, Ni?
- Vou tomar injeção.
- Tá doente?
- Não, anticoncepcional.

Na lata, sem rodeios, como era o jeitão característico da Nicole. Como ela lhe prometera que ele também seria o segundo a saber, ele imaginou que era um lance mais ou menos recente e ela tava a fim de desabafar com alguém. Seu primeiro pensamento de babaca machista foi "Então aquele bundão conseguiu comer a Nicole!". Depois, procurou ser um pouco mais coerente e se auto-corrigiu, sensatamente: "Ih! Caralho, eu tô pensando igual minha mãe! A Ni ama o cara e ele também gosta dela. Acho até que demorou demais...".

Obviamente, o assunto levantado não ficaria por aí, sendo necessário um plenário de discussões entre os dois no bom e velho Santuário:
- É gozado, Tuta, eu falando essas coisas pra você depois que aconteceu: a cabeça da gente muda completamente.
- Comigo não aconteceu nenhuma mudança tão radical assim. Foi mais ou menos como eu imaginei que seria.
- Não é o fato em si, Tuta. São as circunstâncias em que ele ocorre. Você faz mil planos, imagina mil situações, mas na hora, nem vê. Quando percebe, já foi e foi maravilhoso!
- Eis a mulher apaixonada e plenamente satisfeita sexualmente! Nicole, a bem-amada!
- Com muito orgulho, viu, Tuta! É muito bom, eu me sinto meio favorecida pelo destino.
- Hum! Me explica a razão de tamanha felicidade?
- Ah! Tuta, não dá nem pra explicar. Toda menina sonha em transar com um cara que ele ama e que, principalmente, a ame. Foi exatamente isso o que aconteceu, Tuta. Agente se ama e o... (mão em concha) não mudou em nada. Aliás, a gente mudou pra melhor, bem melhor. Nós estamos muito mais apegados, mais íntimos. Você e ele são as únicas pessoas que eu confio irrestritamente.

Mesmo se tentasse, ele não conseguiria disfarçar o quanto ficara lisonjeado. Ela acabava de compará-lo — em termos de confiança — ao cara com quem ela decidiu transar. Não haviam dúvidas, eles eram amigos; apesar do namoro dela e do temperamento dele, ambos sabiam que quando a barra pesasse de verdade era ali que eles se apoiariam.

Tia Marta adorava uma música que chamava "Stand by me" (conta comigo) e Nicole vivia falando que essa era a música deles. Tinha também um filme com o mesmo nome e ela o achava altamente parecido com um menino que trabalhava no filme, o River Phoenix. Ele achava que ela exagerava um pouco, mas aceitava a comparação. Eles não estavam bebendo, mas o papo rolava solto e agradável:
- Talvez você não entenda essa minha empolgação, Tuta. Mas quando você "caplaui" com aquela menina em Camboriú, obviamente só rolava tesão e desejo. Não tinha amor.
- Gozado você lembra do "caplaui", fazia tempo que eu não ouvia alguém falando isso... mas você tá certa, foi só fissura, mas foi massa.
- Eu não me conformo com esse massa. Se algum dia uma menina te perguntar como foi o "caplaui" e você falar que foi massa, acho que ela te bate.
- Não é toda vez que é massa.
- Ah! Depois da menina de Camboriú já rolaram muitas vezes?
- Muuuitas, não. Algumas.
- Quantas?
- Sei lá. Nem contei. Rolaram algumas barangas e poucas gatinhas. Eu não tô muito rodado, não.
- Você amava alguma dessas meninas?
- Não. Acho que não, sei lá...
- Acha que não? Não sabe? Como, Tuta? Você nunca disse "eu te amo" prá alguém?
- Já. Isso eu já disse.
- E não sabe se amava as meninas? Você é doido?
- Sou. Você sabe que eu sou, mas a questão não é essa. O lance é meio complicado, mas eu vou tentar explicar. Quando tá rolando com aquelas barangas sem compromisso emocional, não tem que ficar cheio de onda. É "caplaui" e pronto! Mas com as gatinhas é diferente: elas são sistemáticas, cheias de grilo, de achar que tem que ter amor, essas coisas. Em algumas situações, dá pra sacar que a coisa só vai rolar se voce falar "eu te amo". É igual "abracadabra", Ni. É falar e "caplaui", não tem erro! Uns beijinhos no pescoço, um clima propício e um "eu te amo" sussurrado na orelha é a equação do "caplaui".
- Acho que eu vou te matar de porrada, Arthur!
- Ih! Tá puta, mesmo. Até me chamou de Arthur!
- Você é digno de papel de visão de novela das 8. Parece uma pessoa desprovida de sentimentos. Aposto que você não consegue me dizer 3 coisas que gosta de verdade!
- Aí é que você se engana, Ni. Eu gosto de muita coisa! Gosto de beber (Wisky 12 anos, de preferência, mas uma cervejinha bem gelada resolve o meu problema); gosto do bolo de chocolate com cobertura da Zila; do macarrão com molho branco da minha tia de Sorocaba; do churrasco que meu padrinho faz; gosto de conversar com você aqui no teto; gosto de ser o primeiro cara a beijar uma menina; gosto de peitões enormes com biquinhos rosa; gosto de ouvir Gilberto Gil, Chico e Caetano; ainda gosto, até hoje, de jogar uma partida de botão bem jogada com o Juba-san e o Le-Clerck; gosto da pipoca com bastante manteiga que meu primo faz quando eu vou na casa dele pra assistir Armação Ilimitada ou pre ele me aplicar um som novo; gosto de rock nacional bem tocado, de preferência Legião; gosto de ler Vinícius, Bandeira, Drummnond e Luís Fernando Veríssimo; gosto de pegar livros emprestados com minha tia que trabalha no fórum e depois discutir Literatura com ela; gosto de dormir com a luz acesa só pra irritar o Serginho; gosto de sacanear o Oscar; gosto quando não tem aula de Biologia e Química; gosto do biscoito de queijo da minha avó; gosto das histórias do meu avô português; gosto quando o Mengão goleia o Fluminense; gosto quando o Piquet se dá bem e o Senna se fode e gosto de sonhar com a Malu Mader. De tudo isso eu gosto, mas se você quer saber o que eu adoro de verdade, a única resposta concebível é pegar onda. Eu adoro o surf, é minha religião, minha arte, meu esporte e minha ciência. E vou mais longe, eu amo o mar. Chego na areia e grito: eu te amo! Subo nas pedras e falo a mesma coisa. O mar merece meu amor, ele me entende, me dá o que eu quero e me faz feliz. Não faz sentido falar "eu te amo" pra essas menininhas que não conseguem levar meia hora de papo sem nos dar sono. Se eu encontrasse uma menina inteligente como você e que fosse afim de mim, eu não pensaria duas vezes pra falar que a amo. Não é privilégio do Júnior não, Nicole. Você é que é perfeita. Como eu sei que não existe outra Nicole aqui em Goiânia, tenho esperança de encontrar em outro lugar. Você pode até ficar com raiva de mim, Ni, mas nunca vai me ouvir dizer "eu te amo" sinceramente pra uma menina que não leu nem "O Pequeno Príncipe" ou "O caso da borboleta atíria", ou então que acha os Menudos o máximo em termos de música. Sinto muito, Ni, mas não dá.
- É claro que não dá, Tuta, desculpa. Acho que você tá certo mesmo, eu fico mais tranquila em saber que você gosta de tanta coisa e ainda procura uma menina pra amar.
- É lógico que eu procuro. Ou você acha que eu iria viver só de "caplaui" de verão, sem o menor significado? Um dia eu acho...
- Tomara. E vai ter que ser uma menina muito especial, viu, Tuta? No mínimo tem que gostar de ler e ouvir Legião.
- No mínimo. Me dá um desânimo quase brochante quando eu ouço uma menina dizer que não conhece Manuel Bandeira ou Caetano Veloso.
- Só isso que te desanima?
- Acho que sim. Com umas meninas assim, tem que transar e dormir. Vai conversar sobre o que? A Turma do Balão Mágico? Passeio em shopping center sábado à tarde? É foda...
- É.
- Tem mais uma coisa que me desanima além do lado intelectual. No plano físico, um pé feio quase me dá repulsa.
- Por falar em pé, acho que eu jamais transaria com um cara que tem chulé.

Tuta se lembrou do odor fétido que emanava de seus pés depois de jogar futebol e quase levava seu irmão e companheiro de quarto à loucura.
- Chulé é mais foda que bafo, Ni?
- Bafo é foda, mas um chicletinho pode resolver. Mas chulé... na hora que o cara tira o sapato e vem aquele "fedor", você imagina como deve cheirar o pinto dele!
- É, chulé é foda mesmo — disse o Tuta meio preocupado, encerrando o assunto sem chegarem a algum lugar bem definido...

Arthur chegou em casa e foi direto pro banheiro, onde passou quase uma hora lavando o pé. Depois, passou um spray anti-transpirante do Serginho e colocou pó antisséptico nos seus tênis, que foram colocados na área de serviço.

postado por Randall Ferreira Neto às 15:43 | Comments:



O filho do meio tava completamente de bobeira no seu quarto, curtindo uma sonzêra de uma banda irlandesa politizada que tinha o nome de um avião bombardeiro, quando viu — perplexo — seu irmão caçula entrar:
- Acho que você tem um motivo muito forte pra entrar no meu quarto sem bater e sabendo que eu estou aqui dentro.
- Tenho, sim.
- Você lembra qual é a pena por entrar sem bater?
- Enfiar minha cabeça na privada e dar descarga.
- Isso! Ainda assim, o motivo é relevante?
- É!
- Então fala logo!
- Vou ser curto e grosso: O "motivo" é loira, olho verde, 14 anos, é afim de você e tá lá na sala estudando comigo.
- Hum! Coleguinha sua, é?
- Hum-hum!
- Gatinha?
- Muito. A mais gata da sala.
- A fim de mim?
- Tá. Vai lá na sala, faz de conta que eu não tô sacando uma questão e você vem ensinar e tal...
- Sai dessa! Pode deixar que a metodologia do xaveco eu conheço. Vai lá pra sala, que já-já eu pinto. E tem mais: se não for gata a privada te espera!
- Falô!

Assim que Oscar fechou a porta, ele ficou pensando em como iria abordar a menininha. A tática do irmão de ensinar uma questão difícil era furada, a solução era outra...

Pela primeira vez, Arthur sentiu-se feliz em ser irmão do Serginho, pois a convivência com ele fora altamente didática. Ao ver a amiga do Oscar — que era muito gata — Tuta se lembrou como o irmão mais velho agia em situações semelhantes:
1 — Três beijinhos, com direito a olhar bem no olho da menina e dar um pequeno abraço;
2 — Tomar a iniciativa na conversa, mas deixá-la citar sua música favorita e seu filme predileto. Concorde com tudo, mesmo que o filme seja "Top Gun" e ela goste dos Menudos;
3 — Fingir genuína surpresa ao ouví-la dizer que tem 14 anos: "puxa, com a cabeça que você tem, achei que tivesse uns 16". É batata, altos pontos são ganhos.
4 — Evitar falar de escola, a menos que ela toque no assunto. Não ser metido e demonstrar sincero interesse em tudo o que ela falar, sempre sorrindo e dando umas "maldosas encaradas".
5 — Por último, sair de repente, inventando um compromisso:
- Tchau, Janaína, tenho que fazer umas coisas na rua, mas aparece mais aqui em casa.
- Tá bom. Tchau, Arthur.
- Pode me chamar de Tuta...

Era como se ele estivesse vendo o Serginho uns três ou quatro anos atrás. O cara sabia das coisas e o Tuta ficou ouvindo atrás da porta:
- Nossa, Oscar. Seu irmão é muito dez...

"Yes! Valeu, Serginho!" — comemorou ao Tuta ao sair e contar pra Nicole que iria começar a seguir a carreira do irmão. Obviamente, sem ser tão bundão quanto o próprio...

A oportunidade pintou numa festa de quinze anos de uma menina da sala do Oscar. Tuta detestava essas festas, mas a Janaína merecia o sacrifício. De terno, gravata e completamente sóbrio, lá foi ele em direção de seu alvo. Ele se sentia um pouco deslocado, sem a Ni, o Crustáceo e a cachaça. Ainda bem que tava rolando um Rock Nacional bem legal, tipo Kid Abelha, Legião e Paralamas, e ele pirava com as olhadas da Janaína.

Não havia como ficar sozinho com ela e a menina ia embora à uma, o que fazer? Ele deu uma saída estratégica, foi até a cozinha, virou meio copo de whisky e voltou. Agora era outro papo: chamou a menina pra andar, pegou-a pela mão e sentiu-se alcoolicamente capacitado a chegar nela.

Não deu outra: um beijo massa, seguido de muitos outros. O único grilo é que a menina beijava com o olho aberto. O Tuta ficou meio grilado e comentou:
- Você não tá curtindo, não?
- Por quê?
- Ué, tá me beijando de olho aberto!
- Que que tem?
- Você beija todo mundo de olho aberto?

Ela não falou nada, apenas ficou embaraçada e sem jeito. Não foi preciso muita perspicácia pra ele sacar. De novo, "again", "replay". Mais uma vez ele era o primeiro menino a ficar com uma menina.

De cara veio-lhe a lembrança da Paola e ele também associou a Janaína a mães do século passado e mentes retrógradas. O primeiro beijo, Marista, 14 anos... Talvez por isso ou por qualquer outro motivo ele não procurou a Janaína depois da festa. O asco que ele possuía de caretice o privou de tentar algo mais sólido com ela. Caiu na vida de novo com o Crustáceo e nem deu satisfações à menina.

postado por Randall Ferreira Neto às 16:15 | Comments:



No outro dia, o Tuta acordou um pouco mais tarde e foi pro mar, pegando as melhores ondas da temporada até então. Estava tão animado que nem foi em casa almoçar, comeu qualquer coisa na praia e continuou surfando até o sol baixar.

Chegou em casa exausto, comeu como um animal e capotou. Por volta de meia-noite, Cristiano o acordava para ir a boite. Já estava bem bêbado e o Tuta, completamente sóbrio, uma heresia em se tratando de Camboriú:
- Bora, Arthur! Já são meia-noite e a minha gringa deve estar me esperando!
- Você toma cuidado, Crustáceo. Uma mulher daquele tamanho dá porrada em você, se bobear.
- Eu me cuido. Toma uma chuveirada e vamos nessa, vai!
- Tô com preguiça...
- Corta, Tuta! Em dois dias a gente tá lá na pasmaceira de Goiânia de novo, sem porra nenhuma pra fazer. Levanta logo!
- Falô. Mas não tô numas de beber hoje, não. Vou ver qual que é a de ficar careta...

Era uma bosta! Ele não dançava, não curtia o som e a timidez o impedia de encarar alguma menina. Ele tinha duas opções: ou ir embora, ou começar a beber desesperadamente, pra entrar no clima.

Antes de se decidir, ele avistou a menina da noite anterior. Como ela se chamava? Por mais que se esforçasse, ele não se lembraria e começava e se preocupar com sua amnésia em relação a nomes. Observando-a sob um ponto de vista menos embriagado, ela não era tão gata como ele imaginava ou achava que recordava.

Ela era bem comunzinha e o Arthur pensou em fingir que não acontecera nada e passar direto. Porém, ele não tinha esse elevado potencial de escrotice e foi falar com ela:
- Oi!
- Oi, Arthur, tudo bem?

A Nicole tinha razão, ela se lembrava do seu nome. Para sua sorte, uma amiga chamou a menina e ele redescobriu o nome dela: Carla. Agora ele podia conversar com ela sem medo de passar vergonha:
- Como é que passou o dia, Carla?
- Na ressaca! Nem fui à praia e acordei às cinco. E você?
- Fui à praia e peguei onda o dia todo.
- Que saúde! Deve estar morto agora!
- Digamos que em coma. Vou deixar pra morrer em Goiânia.
- Você é um sarro! Vamos dar uma volta?
- Será que eu vejo um tom malicioso e convidativo na pergunta?
- O quê que você acha?
- Hummm! Praia?
- Você escolhe o intinerário. Tô afim de ser raptada!
- Considere-se como tal. Vamos nessa!

Ela despediu-se das amigas e ele teve o cuidado de avisar o Cristiano que demoraria. Este estava por demais envolvido em sua relação internacional com o monumento de um e setenta para dar ouvidos ao precavido Arthur. Amigos e amigas devidamente avisados, os dois zarparam. Mas, ao invés de irem para a praia, optaram pela segurança constrangedora de um motel. Tuta não curtiu muito o lugar, mas o acontecimento fez com que ele desencanasse. Talvez pela sobriedade, ou a falta de ansiedade, ou mesmo pelo fato de terem feito na tradicional e confortável cama, a segunda vez de Tuta superou em muito a primeira.

Após transarem pela segunda vez naquela noite, Tuta foi tomar banho e, ao voltar, a Carla entregou o relógio que ele já dera como perdido:
- Que massa, Carla! Tava com você?
- É, eu tenho que te confessar uma coisa: sou cleptomaníaca. Sério mesmo, já fui até em psicólogo, mas parece que não tem cura. Quando você tirou o relógio ontem pra a gente entrar no mar, eu não resisti e "dei o banho nele". Só que, pela primeira vez, eu me arrependi e tô te devolvendo.

"Claro! Pra transar comigo de cara, não pode ser 100% normal. Tem que rolar uma piração" — constatou Arthur, olhando a pequena ladra. Contudo, uma cleptomaníaca passível de arrependimento era um defeito altamente relevante, levando-se em conta o que estava acontecendo entre eles.

Após a terceira empreitada no meio dos lençóis, os dois conversaram como velhos amigos. Arthur falava abertamente com ela, discorrendo sobre surf, que ela tinha sido a primeira dele (e sentiu-se lisonjeadíssimo ao ver que ela ficara legitimamente surpresa), a promessa com a Nicole, o episódio do "chico" com a Lílian, seus complexos de filho do meio e sua verdadeira idade.

Em cada assunto, eles riam ou refletiam bastante. A menina era um barato, cabeça aberta e compreensiva. Dava uns conselhos bem "Nicolescos" e disse que estava morrendo de vontade de conhecer a grande amiga que o Arthur falava tanto. Depois das horas a fio conversando com a Carla, Tuta descobriu que sabia manter uma longa conversa com uma menina legal. Passado o primeiro momento, a timidez desaparecera e ele percebeu que poderia ser inteligente, agradável e divertido com alguém sem estar, necessariamente, bêbado. Uma outra coisa que ele pôde perceber nisso tudo foi que o lance de fazer uma menina rir contava altos pontos, excluindo-se, claro, a hipótese dela rir caso você apareça na frente dela de cueca, suspensório e gravata... Mas não dava prá negar que, em todos os sentidos, aquele seu relacionamento de verão foi um grande laboratório, uma puta experiência...

E essa experiência foi a lembrança mais agradável que ele guardou de sua estadia em Camboriú naquele ano. Direto ele fazia uma memorização de tudo o que ocorrera com a Carla e tinha certeza que em Goiânia não encontraria uma menina cabeça aberta como ela. No mais, bola pra frente que um ano no cerrado ainda o separava das ondas, boites e meninas como a Carla. O esquema furado das meninas de Goiânia contribuía bastante para a sua decisão de permanecer solteiro.

Ele e o Cristiano "Crustáceo" continuavam tomando todas, a Nicole e o Serginho ainda viviam suas respectivas monogamias e, por incrível que pareça, uma grata surpresa naquele ano ocorreu por intermédio do Oscar, com quem Tuta não conversava há quase dois anos.

postado por Randall Ferreira Neto às 16:05 | Comments:



Nosso amigo Tuta faz um novo amigo, a Nicole começa um namoro sério, a história pouco lembra aquele inocente início onde duas crianças brincavam de se beijar no teto do prédio e trocavam provas de matemática, né?

Estou indo pra terra dos meus personagens que estão Além das Portas, fico em BH até sexta e nesse período, dependo da minha mais que fiel escudeira Blue pra dar continuidade a esse Filho.

Beijos a todos e um pedido do autor: por favor, abra a caixinha de comments e se identifique, se possível deixando um e-mail pra contato ou algo nesse sentido. Eu adoro vocês!

postado por Randall Ferreira Neto às 09:52 | Comments:



V
"DE REPENTE, CALIFÓNIA"


O vento beija meus cabelos
As ondas lambem minhas pernas
O sol abraça o meu corpo
Meu coração canta Feliz...

Tuta não se cansava de ouvir a música "De repente, Califórnia", do Lulu Santos — já considerada antiga naquele verão de 85, que ficou marcado tanto pelo Rock'n'Rio, quanto pelas eleições indiretas que escorraçaram, com injustificado atraso, os militares do poder no Brasil. Os versos da canção combinavam perfeitamente com o sol que ardia no Balneário Camboriú, o paraíso terrestre do único surfista goiano de que se tem notícia.

E ele se esforçava cada vez mais para ficar mais surfista e menos goiano durante sua estadia na praia, onde o mar era a coisa que mais lhe interessava. O resto era detalhe. Cristiano, seu fiel companheiro de viagem naquele ano, pensava diferente. Acordava quase meio-dia e só ia à praia rapidamente, para dar uma badalada e voltava ao aprtamento. Suas atenções estavam voltadas para as madrugadas na "boite" local, regadas a muito álcool.

Tuta possuía preparo físico para curtir a noite e surfar de dia, à base de muita disposição e guaraná em pó, deixando pra colocar o sono em dia quando chegasse em Goiânia, onde esperava as férias acabarem na base do ócio total.

Enquanto Goiânia não vinha, aproveitar o máximo de Camboriú era a palavra de ordem e Tuta procurava levá-la até as últimas consequências. Acordava às sete e não dormia antes das três. Quando muito, tirava uma soneca após o almoço pra recarregar as baterias, nada mais. Perder tempo dormindo era pecado gravíssimo para quem só passava 20 dias por ano na praia e passava os outros 345 imaginando como seriam as ondas que iria pegar.

Quanto à ondas, nada a reclamar, pois ele já estava ficando fera no surf. Às vezes, ele até se arriscava em manobras mais radicais, com consequências menos gloriosas, fazendo-o cair na real e concentrar-se no básico.

Em se tratando da noite, as espectativas foram, em muito, superadas, tendo em vista que ele e o Cristiano conseguiram alguns resultados positivos em seus ataques kamikazes às paulistas, gaúchas, catarinenses e até argentinas. Haviam também foras históricos, mas como estavam quase sempre bêbados, a moral e a auto estima deles tornava-se menos abalável. Uma dose a mais de alguma coisa forte e eles já estavam prontos pra outra.

O pensamento dos dois era que, se chegassem em 20 meninas e levassem 20 foras, já era lucro. Se uma concordasse em um rápido relacionamento interestadual sem compromisso, a noite estava ganha. Algumas gatas e verdadeiros jaburus faziam parte do rol de conquistas dos goianos.

O Arthur era mais bonito, mas o Cristiano tinha o poder da lábia, dominava como poucos a arte de xaveco. Para não passar a noite em branco, valia tudo. Até mesmo ficar com uma argentina de quase cem quilos (como o Arthur), ou uma paulista baixinha e magrela que tinha um bafo de onça (no caso do Cristiano). Porém, na maioria das vezes