Para os meus leitores. De livro, de blog, e até mesmo os coitados dos juízes e ex-adversos que tiveram que ler minhas petições.

Agradecimentos:
Aos que leram o manuscrito e a todos os exóticos e pouco ortodoxos filhos do meio que me forneceram vasta inspiração.

Ficha Técnica:
Escrito entre maio de 95 e fevereiro de 96, constantemente atualizado e recusado pelas melhores editoras do ramo. Tenho até hoje emoldurada a recusa da Conrad, a primeira de todas.

Sei que se meus textos tivessem pedigree, seria algo ali pelos filmes do John Hughes, com atenção especial para A Garota de Rosa Shocking e Alguém Muito Especial. Mas filmes são filmes e livros são livros, portanto, vamos aqui aos co-responsáveis, tudo aquilo que veio depois de Marcelo, Marmelo e Martelo e Meu Pé de Laranja Lima, e que contribuíram bastante com o que eu ouso chamar de "estilo":

1- Feliz Ano Velho - Marcelo Rubens Paiva
2- Pergunte ao Pó - John Fante
3- Dom Casmurro - Machado de Assis
4- Os Velhos Marinheiros - Jorge Amado
5- O Primo Basílio - Eça de Queiroz
6- O Fio da Navalha - Somerset Maugham
7- O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde
8- Morangos Mofados - Caio Fernando Abreu
9- Micro Servos - Douglas Coupland
10- Alta Fidelidade - Nick Hornby
11- Pai e Filho - Tony Parsons
12- Intimidade - Hanif Kureishi
13- A História Secreta - Donna Tartt
14- O Dom de Gabriel - Hanif Kureishi
15- O Apanhador no Campo de Centeio - J D Salinger
16- O Encontro Marcado - Fernando Sabino
17- Xadrez, Truco e Outras Guerras - José Roberto Torero
18- Cléo e Daniel - Roberto Freie
19- O Mundo de Sofia - Jostein Gaardner
20- Um Grande Garoto - Nick Hornby
21- A Mesa Voadora - Luís Fernando Veríssimo
22- Malu de Bicicleta - Marcelo Rubens Paiva
23- Relíquias de Casa Velha - Machado de Assis
24- Os Miseráveis - Victor Hugo
25- Febre de Bola - Nick Hornby
26- Postais por Escrito - Ricardo Freire
27- Máquina de Pinball - Clarah Averbuck
28- O Matador - Patrícia Melo
29- Capitães de Areia - Jorge Amado
30- Chega de Saudade - Ruy Castro
31- O Clube dos Corações Solitários - André Takeda

Arquivos
Maio de 2004
Junho de 2004
Julho de 2004


Powered by

Layout by Luciana C.

Ainda no gancho dos Titãs, o lance da "obra" é algo interessante.

Por exemplo: o cara fez "Um Grande Garoto", que é um filme bacana; fez "Em Boa Companhia", que é razoavelzinho, ganha pontos preciosos pela excelente trilha sonora. Com isso, achei que valeria a pena pegar o filme novo dele, que tem o Hugh Grant e o Dennis Quaid, mas... deveria ter considerado que o mesmo cara fez "American Pie".

Que bosta! Não sei bem ao certo se o cara pretendia uma crítica ou uma sátira a esses formatos "American Idol", mas o resultado não saiu uma coisa nem outra. Um filme infeliz, desses de manchar o currículo do cidadão.

Voltando aos Titãs, eu não sei bem se o último disco deles que prestou foi Õ Blesq Blom ou Tudo Ao Mesmo Tempo Agora... na verdade, eu gosto de alguma coisa no Titanomaquia. Eu acho que a maionese desandou mesmo no Acústico, e hoje em dia, me sinto até constrangido em lembrar do Paulo Miklos abrindo o show com "Clitóris" e a luz do estrobo batendo na parede de pratos de bateria; essas e outras imagens impressas na minha adolescência, se confundem com outras bem menos agradáveis, como o Arnaldo Antunes "recitando" Eça de Queiroz em "Amor I Love You - Úh!", ou fazendo parte daquele cabidão de emprego chamado "Tribalistas". Sem falar em aparições grotescas em programas do Roberto Carlos e sertanejos. Ou o Nando Reis fazendo show com a camisa do Proposta (nunca mais compro um disco do cara! Daqui uns anos, quando passar a raiva, talvez eu volte a escutar o que já tenho, por hora é só ódio!) e coisas do gênero.

Dos bons tempos, tinha uma música que eu gostava:

Nome aos Bois
"Garrastazu, Stalin,
Erasmo Dias, Franco,
Lindomar Castilho, Nixon, Delfin, Ronaldo Boscoli,

Baby Doc, Papa Doc,
Mengele, Doca Street, Rockfeller

Afanásio,
Dulcídio Wanderley Bosquila,
Pinochet, Gil Gomes, Reverendo Moon, Jim Jones,

General Custer,
Flávio Cavalcanti,
Adolf Hitler,
Borba Gato, Newton Cruz, Sérgio Dourado

Idi Amin, Plínio Correia de Oliveira, Plínio Salgado,

Mussolini, Truman, Khomeini, Reagan, Chapman, Fleury"

A música em si pode ser considerada meia-boca. Mas representa muito bem a relação que eu tinha com o meu pai, pois eu a escutei e fui perguntar a ele quem eram os caras (alguns poucos eu conhecia). E o coroa matou quase todos, do jeito dele, me chamando de idiota e fazendo um mini-resumo contextualizado sobre o cidadão. Acho que ele engasgou com Gil Gomes e Chapman, e não entendeu porque o Stálin e Ronaldo Bôscoli estavam ali em tão distinta companhia.

Gosto de lembrar dessa música porque ela me lembra um pouco a natureza do lado bom do relacionamento com meu coroa. Segurança financeira não tinha, depois de um certo tempo. Mas essa "segurança cultural", essa certeza de poder perguntar qualquer coisa com ele que a resposta viria (num tempo sem google) com a exatidão de uma enciclopédia era algo que me fazia respeitá-lo.

Gosto de pensar que éramos exceção. Quantos pais saberiam responder, com margem tão pequena de erro, quem foram os "bois" da música dos Titãs?

O meu sabe!

postado por Randall Ferreira Neto às 17:24 | Comments:



MANUAL DE INSTRUÇÕES

Que bom que você veio parar aqui! Achou estranho? É meio estranho, pois você está no final de uma história, que começou em Maio - 2004, o atalho está no canto inferior esquerdo, você clica nele e rola a página até embaixo, onde vai lendo de baixo pra cima.

Muito trabalho? Você pode também copiar e colar no word, pra ler quando tiver tempo. Se ler, me diz o que achou.

É o "meu" livro mais importante!

Thanx!

postado por Randall Ferreira Neto às 13:00 | Comments:



(Infelizmente, essa é a última postagem d'O Filho no Meio, que vai ficar aqui esperando por uma proposta para ser publicado.)

Sem que nada pudesse fazer, o indefeso Tuta bebeu muita água antes de sentir uma forte pancada na cabeça, que apagou tudo.

De uma hora prá outra, ficou tudo preto, escurão! A mente do Tuta era um breu total. Foi assim até o momento em que ele começou a se sentir leve, meio flutuando, quando então o preto transformou-se num cinza e foi clareando ainda mais, um "degradê" psicodélico até tornar-se branco, e do branco, evoluir até uma espécie de luz forte que parecia cegar-lhe, produzindo uma forte dor em algum lugar na sua cabeça.

Era uma dor tão insuportável, que ele desejava que qualquer coisa o aliviasse daquele martírio. No momento em que começava a sucumbir à dor, ele conseguiu divisar uma imagem difusa no meio da luz. Depois de um pequeno intervalo de tempo, ele conseguiu decifrar a imagem: era um sorriso.

O sorriso converteu-se em gargalhada, uma gostosa gargalhada que ele conhecia bem: era a Nicole! Ao fundo do sorriso, Tuta viu surgir o mar azul, de onde ele emergia de braços abertos, sorridente e gritando:
- Eu te derrotei! Eu te derrotei! Eu te derrotei...

Tuta podia voar! Depois de vencer o mar, ele ia se deixar levar pelo vento, que o colocou em cima de um estádio de futebol, onde Brasil e França disputavam uma vaga para a semi-final da copa de 1986.

Zico se preparou para bater o pênalti, correu, chutou e fez! Goleiro de um lado e bola no outro! O Zico saiu comemorando feito um louco, olhando prá cima e dizendo:
- Esse é seu, xará! Esse gol é prá você, Tuta...

Emocionado com a homenagem do ídolo maior, Tuta resolveu simplesmente fazer uma pose imitando o super homem e sair rasgando o céu.

Porém, ao sobrevoar Goiânia, o Tuta viu, pela janela de um apartamento, ele viu a Nicole chorando e falando:
- Eu vou tomar bomba em matemática...

Não, não ia mesmo! Ele evitara uma vez e evitaria sempre que fosse preciso. Pegou-a pela mão e a levou para o santuário, onde deu-lhe um beijo sob as estrelas.

Gozado, a Nicole não sabia voar. Seria muito gostoso voar com ela. Mesmo assim, foi legal sair correndo de mãos dadas com ela pelas areias do Araguaia, até pularem de um penhasco que parecia não ter fim, mas teve.

O fim do penhasco era uma imagem para o Tuta, uma fotografia que ele conhecia muito bem: a foto dos 4, que jamais sairia da memória dele. Ele estava ali , rindo com a Nicole, o Crustáceo e o Júnior de novo. Como é bom sorrir.

O sorriso foi interrompido por um barulho de sirene e a impressão que seu corpo sacudia. A dor voltara, mais forte e mais implacável ainda. Ele abriu os olhos e, apesar de estar com a vista embaçada, sacou que estava numa ambulância.

Ao seu lado estava a Laura, com a camiseta ensangüentada e os maravilhosos olhos azuis da cor do mar sem parar de chorar.

Quando ela viu que ele despertou, começou a falar, mas o Tuta não entendia; ela segurava sua mão com força e falava, sem saber que ele só ouvia algumas palavras dispersas:
- Pancada... Cabeça... Te amo... Hospital em Salvador... Não me deixa... Você vai ficar bom...

Ele não entendia o que ela estava dizendo, mas queria fazer alguma coisa prá ela parar de chorar. Não havia razão pra choro, ele ia ficar bom. Sem saber bem por quê, ele tinha certeza que iria ficar bom, foi só uma pancada na cabeça, igual àquela que ele deu no Oscar, só isso.

Os olhos da Laura era tão bonitos! Era uma pena vê-los chorando... "não chora não, Lau" — mentalizou o Tuta tentando se comunicar com ela por telepatia. "Eu vou ficar zero, fica fria! Afinal de contas, não foi por acaso que eu vi a Nicole, o Júnior, o Crustáceo e o Zico!"

Olhando no fundo dos olhos da eterna namorada, ele sentiu uma imensa vontade de ter um filho com ela. Um filhinho pra ele ensinar a pegar ondas e levar ao Maracanã para ver o mengo jogar. Realmente, já estava na hora dele ter um filho e, sem entender porquê, naquela hora, ele sentiu uma vontade incrível de conhecer o seu sobrinho que se chamava Arthur.

Estava decidido: quando voltassem de onde estavam indo, ele iria ver o filho do Serginho e teria um filho com a Laura. No momento, ele só queria que a dor passasse. Foi então, que ele se lembrou que, enquanto estava voando a cabeça não doía. Essa era a solução: Voar! O vôo seria o seu analgésico Salvador.

Então, olhou mais uma vez para a Laura, esboçou um gesto com os lábios que ele imaginou ser algo como um sorriso tranquilizador, fechou os olhos e sentiu uma imensa vontade de voar...

Só que desta vez ele não voou; ao invés disso, viu-se num lugar em que, numa mesa, tomavam cerveja e conversavam animadamente o Renato Russo e o Kurt Cobain, que, assim que perceberam sua presença ali, fizeram sinal prá que o filho do meio tomasse lugar junto a eles. Quanta Honra!

Quando a ambulância parou na garagem do hospital neurológico de Salvador, o filho do meio era um mero cadáver. Um pedaço de matéria inerte, a antiga moradia do espírito irreverente daquele maluco; espírito que deveria estar entre Netuno e Iemanjá, rei e rainha do mar, o reino do Tuta.

Sem conseguir largar a mão do namorado, a extensão de um corpo frio e sem vida que já fora a razão de sua alegria, a Laura não hesitou em questionar chorando:
- Por quê, Deus? Por que você se acha no direito de tirar o Tuta de mim, hein? Porquê?

A resposta era muito simples: Deus não apenas protege os loucos, ele também escolhe os melhores e leva prá junto de si. Por isso que, o Tuta, o Kurt e o Renato, eram loucos que, ao invés de irem para o santuário, iriam voar pelo imenso universo. Um universo tão gigantesco quanto a dimensão de sua genial insanidade. Estejam com Deus, meus amigos!

"YESTERDAY I GOT SO SCARED
I SHIVERED LIKE A CHILD
YESTERDAY AWAY FROM YOU
IT FROZE ME DEEP INSIDE
COME BACK COME BACK
DON' T WALK AWAY
COME BACK COME BACK
COME BACK TODAY
COME BACK COME BACK
WHY CAN'T YOU SEE
COME BACK COME BACK
COME BACK TO ME
AND I KNOW I WAS WRONG
WHEN I SAID IT WAS TRUE
THAT IT COULDN'T BE ME AND HER
INBETWEEN WITHOUT YOU
WITHOUT YOU ..."
(THE CURE — INBETWEEN DAYS)

................................................

Alheia ao que havia acabado de acontecer com seu grande amigo, enquanto as últimas notas de "If tomorrow never comes" emanavam do rádio e começava a tocar "Inbetween Days", a Nicole abriu o envelope do laboratório e viu que o exame dera positivo, ela estava grávida novamente. No exato instante que, muito longe dali, o coração do Tuta parou de bater, a Nicole constatou: com essa gravidez, o Arthur será um filho do meio. Começaria tudo outra vez...

postado por Randall Ferreira Neto às 22:17 | Comments:



(Penúltima parte do último capítulo d'O Filho do Meio. E, para entrar no clima de "último dia de novela", separamos um suspense especialmente para o fim.)

Em Ilhéus, porto cacaueiro da Bahia, cidade cenário de "Gabriela, cravo e canela", um bem-sucedido dono de bar se preparava para pegar outra incontável série de ondas, na praia em que funcionava sua barraca, o "cartão postal" do auê em Ilhéus. Sentado na areia e olhando pro mar, Tuta se lembrou da primeira vez que deparou com o Oceano Atlântico...

Foi em Ubatuba, 1974. Ele tinha 5 anos, o Serginho 8, e o Oscar 3. Eles chegaram à tardinha, deram uma arrumada na bagagem e foram à praia molhar os pés.

Enquanto sua mãe e seu pai ficavam na areia com o Oscar, ele e o Serginho, de mãos dadas, adentravam na casa de Iemanjá pela primeira vez, sentindo a água subir dos joelhos para a cintura e consequentemente, para o peito, à medida que caminhavam no mar.
Porém, quando os dois chegaram à arrebentação, uma onda fez com que o frágil corpo do Tuta acabasse submerso e com um desagradável gosto de água salgada na boca, um puta caixote!

Quando voltou à tona, o que viu o deixou ainda mais emputecido: sua mãe seu pai e o Oscar dobravam-se de rir, ao passo que o Serginho pairava soberano, indiferente à força das ondas que arremetiam contra ele.

Tentou fazer igual ao irmão e foi derrubado de novo, e a cada tentativa, um fracasso vinha acompanhando das sonoras gargalhadas dos pais e do desprezo do Serginho, que permanecia indestrutível.

Desistindo de lutar, o Tuta virou as costas para o horizonte e tomou a direção da praia, onde os seus pais e o Oscar não se cansavam de tanto rir da sua cara.

Um ódio profundo e sincero, como só as crianças são capazes de sentir, brotou no coração do Tuta, ao mesmo tempo que nascia o desprezo pelo Serginho e a paixão desafiada pelo mar. Ajoelhado no rasinho, ele cerrou os punhos em direção ao mar e proferiu o seguinte juramento : "um dia eu vou te vencer de todas as formas, eu prometo! Eu vou morar perto de você e te dominarei, seu desgraçado! Eu vou voltar!¿

Desde que se mudara prá Ilhéus, todos os dias da vida do Tuta foram em função da sua promessa, e ele conseguira: dominava o mar como poucos! Era um craque sobre as ondas!

Contudo, aquela placa de: "perigo! Mar impróprio para banho" e as ondas assustadoras provocadas pelos ventos fortes, lançavam um desafio no coração do Tuta, que se preparava para enfrentá-lo mais uma vez.

A Laura sabia que nada o faria desistir daquela empreitada meio suicida, mas perguntou:
- Você vai mesmo, né, Tuta?
- Vou. Você sabe que eu vou.
- Tá esperando o quê, então?
- Terminar a nossa música...

Somente então ela se deu conta que estava tocando ¿Inbetween Days¿ no som da barraca. Ele sorria confiante pra ela, mas como se houvesse uma necessidade imperiosa de tranquilizá-la, falou:
- Não sei porque esse grilo todo, você sabe que eu já surfei mares piores; lembra aquele dia na Joaquina, com "dois Paus fechando"?
- Não, Tuta, eu não me lembro... pela milésima vez: eu não tenho a sua memória, eu não me lembro com exatidão de algumas coisas ridículas que você lembra!
- Você nunca vai entender, né? E o pior é que só você sai perdendo numa dessas, pois eu acabo reunindo um conjunto muito maior de sensações ao longo da minha vida e você não.
- Será que eu consigo sobreviver sem saber como é a dor de uma porra de um pênalti perdido por um jogador do Flamengo numa Copa do Mundo imbecil?!?!

Esse era realmente um problema sério, dificílimo de resolver: fazer com que as pessoas compreendam o que é realmente importante prá nós, independentemente do valor absoluto de importância que essas coisas possuem frente ao resto da humanidade. Ele realmente sabia como era a dor que ela citara com tamanho desprezo, bem como sabia como era gratificante a sensação de atravessar uma avenida de olhos fechados, de pular de um penhasco completamente bêbado no meio da noite, de fazer um belíssimo gol de cobertura num jogo de botão, de ver o Flamengo ser campeão do mundo e de dropar uma onda perfeita.

Talvez a Laura qualificasse tudo aquilo como ridículo e risse na sua cara, mas nem só de afinidades irrestritas vive um casal, afinal de contas, dentre outras coisas, ela não suportava o Woody Allen, que ele adorava...

O que Tuta sabia era que aquela discussão estava atrasando demais sua entrada no mar furioso e não tinha a menor razão de ser; por isso, resolveu encerrar a questão:
- O que eu quero que você entenda, Laura, é que nem tudo se resume ao pênalti que o Zico perdeu em 86... é tudo uma somatória de coisas boas e ruins que se misturam e formam um lance que eu não sei direito o que é, mas é nisso que eu fico pensando de vez em quando, no meio da noite ou aqui em frente ao mar... é como se eu passasse o resto da minha vida me lembrando de quando eu li "Alta Fidelidade" e de quando a gente viu a peça e assistiu o filme em São Paulo, no ano passado; a primeira vez em que eu ouvi Belle & Sebastian; quando eu pus os pés nas areias do Havaí; quando eu vi o teto da Capela Sistina; quando o Renato Russo morreu; quando eu fiz a surpresa prá você; quando eu cheguei no seu apê em Cambú e você me esperava só de camisola; da metáfora perfeita que você fez do sono de segunda feira... talvez um monte de coisas já não signifique muito pra você, mas eu consigo me lembrar com exatidão de cada momento nosso a cada vez que ouço ¿Inbetween Days", principalmente de você parada na minha frente me pedindo pra ver meu desenho... eu te amo, Lau! Eu tenho esse meu jeito de ficar juntando trapos na memória e lembrar de um por um, mas você sabe que, na maioria das vezes é dos nossos momentos que eu estou me lembrando...

Ela ficou ouvindo-o falar de maneira desenfreada e não conseguia entender o que exatamente desencadeara aquela avalanche de palavras, bem como já não conseguia entender por que motivo estavam tendo aquele arremedo de briga tão tolo. Sem ter o que (ou mesmo porquê) argumentar, limitou-se a dizer:
- Toma cuidado.
- Fica tranquila! Deus protege os loucos, ele não vai me deixar na mão!

A Laura sabia de onde ele tirava essa certeza, pois já o ouvira contar milhões de vezes a estória em que atravessou a avenida com a Nicole, quando bateram o carro dela voltando de uma festa e de quando o Tuta pulou de um penhasco de ponta, à noite e bêbado. Tudo isso poderia até confirmar a eficácia daquele ditado, mas ela não se sentia segura ao ver a agitação do mar naquele dia. Ela jamais tentaria demovê-lo, e então, mesmo não tendo a excelente memória do namorado e apesar de partidas de futebol não terem o menor significado para ela, a Laura se dirigiu à barraca prá colocar o disco solo do Herbert Vianna que tinha uma versão muito legal de "Inbetween Days", sabendo que dentro em breve o Tuta sairia do mar realizado de novo; sendo assim, tentou esquecer que não estava sentindo boas vibrações...

Indiferente às vibrações e elucubrações da Laura, o Tuta já estava decidido a cair na água com sua prancha, totalmente alheio ao inferno aquático que estava o mar naquele dia, digno de dar medo no mais experiente surfista.

Só que o Tuta não sabia o que era medo do mar, e confiando no seu ditado, "dropou" uma onda gigantesca, com a alma impregnada de satisfação.

Após alguns segundos de demonstração de perícia e porra-louquice, o mar resolveu castigar um dos seus mais devotados discípulos, agindo como um anjo vingador que pune aqueles que o desafiam sem conhecer sua ira. Com uma força avassaladora, o mesmo mar que acalentava os sonhos do Tuta, o derrubou e o arremessou contra a letal parede de rochas.

postado por Randall Ferreira Neto às 19:49 | Comments:



(Segunda parte do último capítulo d'O Filho do Meio, que chega ao fim na próxima segunda-feira.)

Enquanto esperava, pegou sua carteira na bolsa, abriu-a e viu a foto de novo. Junto com as fotos dos filhos e do marido, escondia a foto amassada de quatro rostos sorridentes do século passado. Como que por milagre, começou a tocar no rádio do laboratório uma música que o Renato Russo havia gravado : "if tomorrow never comes". Num determinado momento da canção o cara imagina que, se a pessoa que estivesse ao seu lado, de repente morresse, ele não teria dito o quanto a amava e o quanto ela era importante... esse pedaço da música acabou fazendo a Nicole viajar ao olhar aquela fotografia: "eu nunca disse realmente a essas pessoas aqui o quanto elas foram importantes prá mim... o Crustáceo tudo bem, não tivemos tanta convivência assim, mas ele me apresentou o Júnior... ah, o Júnior! Meu primeiro namorado, meu primeiro beijo de verdade, meu primeiro tudo! Minha primeira dor também... será que ele tem noção do quanto o quero imensamente bem e o quanto ele me ajudou a crescer e a ser o que eu sou hoje? E esse maluco aqui, rindo como só ele mesmo sabia rir da vida? Meu primeiro e inocente beijo num teto sob as estrelas, uma sensação estranha... com ele eu aprendi a beber, a curtir a vida, a ludibriar professores e a estudar matemática. Faz tanto tempo que eu não te vejo, Tuta, desde o último dia no Santuário, às vésperas do meu casamento; como é que anda sua vida? De todas as pessoas que eu conheci, você foi a mais importante de todas, meu melhor amigo, o GRANDE AMOR DA MINHA VIDA! Será que você tem noção disso?"

Num apartamento do Setor Bueno, um cara de 31 anos arrumava suas coisas para ir embora de casa, estava se separando. O casamento de 13 anos fora um verdadeiro buraco-negro na sua vida, um desagradável vácuo que, nem mesmo o filho que cursava o ginásio foi capaz de salvar.

Ele já não agüentava mais as cobranças, as enchenções de saco e a futilidade de sua esposa, uma pessoa que deveria ser deportada para a "Terra do Nunca", a ilha de Peter Pan, onde as pessoas não crescem nem assumem responsabilidades, vivem numa eterna atmosfera colegial, vazia e sem fundamento. Enquanto separava seus CDs, alguns livros e objetos pessoais, uma foto parou em suas mãos e ali permaneceu por mais tempo.

Há quanto tempo ele não sorria daquele jeito? Observando a expressão de felicidade dele e de seus 3 amigos, ele pensou: há quanto tempo já não tinha amigos?

Hoje, ele tinha grana, era um bem sucedido publicitário. Tinha um filho e estava absolutamente decidido a ter uma ex-mulher. Olhando aquela foto sensacional, o Crustáceo se interrogava: "como é que eu pude renunciar àquela maravilhosa amizade"?

Em São Paulo, num luxuoso apartamento de cobertura, o Júnior servia-se de uma generosa dose de uísque, colocava um antigo CD do Tom Jobim para tocar e sentava-se numa confortável poltrona de sua sala de estar. Naquela noite, ele dispensou a tradicional "cheirada" noturna, pois queria manter seu cérebro isento de cocaína para poder raciocinar com maior lucidez.

O assunto que lhe consumia o pensamento era o seguinte: o convite que recebera da firma que trabalhava para mudar-se para a cidade onde funcionava a sede da empresa: Houston, E.U.A. Há muitos anos, com todos os cursos que possuía, conseguiu um excelente emprego numa firma multinacional, galgando rapidamente os cargos, aliando seu conhecimento à sua capacidade, despertando inveja de uns e orgulho de outros.

O seu bem-sucedido emprego possibilitava-o morar bem, ter uma esposa bonita, carros importados, freqüentar festas badaladas e sustentar o pequeno e quase inofensivo vicio em cocaína. Tanta ascensão em pouco tempo despertou atenção da cúpula da empresa e, há uma semana atrás, recebera o convite pessoal do presidente para trabalhar nos E.U.A., respaldado por um astronômico salário, moradia, carro, escola para os filhos e a possibilidade de, no futuro, ser agraciado com um cargo de diretor.

Parecia uma proposta irrecusável e ele parecia bastante propenso em aceitar, pois ele só precisava renunciar ao Brasil. E o que tinha o Brasil de tão interessante assim? Há muito tempo, o Júnior já perdera as esperanças com sua terra natal, constatando que, a música escrita por Renato Russo, em 1978, continuava atual: "que país é esse?"

Júnior só se decidiu em definitivo ao examinar os porta-retratos que ficavam sobre um aparador da sala de estar: mesmo com seus protestos, sua esposa colocou as fotos patéticas do casamento dos respectivos pais. Júnior achava-as totalmente fora de contexto, mas não se opunha a elas, apenas as desprezava.

A foto de seu casamento lhe agradava, pois ele constatava orgulhoso que, a custa de muita malhação, a esposa escapara ilesa dos estragos do tempo, continuando fascinante, assim como na foto do último reveillon, que pairava ao lado.

Nada lhe enternecia tanto quanto a foto de seus filhos: Nicolau e Arthur, de 8 e 5 anos, respectivamente; precavido como sempre, submeteu-se a uma vasectomia, pois já estava satisfeito com os dois filhos.

Além dos porta-retratos com as fotos dos quatro membros respeitáveis daquela ilustre família, repousava tranqüila a foto favorita
dele, que o grande e louco amigo de Goiânia havia lhe dado em sua discreta despedida no aeroporto: ele, a Nicole, o Tuta e o Crustáceo; 4 amigos sorridentes brindando à amizade e ao descompromisso com a vida. Descompromisso esse que desapareceu junto com o século XX, dando lugar ao emprego, responsabilidade e casamento.

Há 13 anos atrás, ele foi capaz de deixar Goiânia e seus amigos. Enquanto o maestro enchia a sala com os primeiros acordes da "Garota de Ipanema", o Júnior constatou que, deixar o Brasil seria muito mais fácil!

postado por Randall Ferreira Neto às 17:04 | Comments:



XI
2001— Nem odisséia, nem epopéia


Em 2001, o primeiro ano do terceiro milênio, nada mudou tanto assim. Não há naves pelas ruas, nem o eterno revólver a base de pólvora foi substituído por pistolas "laser".

Goiânia cresceu, mas sua atmosfera provinciana continua a mesma. São Paulo também cresceu, mas há muito tempo já era uma cidade fora da realidade do Brasil. E o Brasil? Em 2001, o Brasil continua na torcida para que seu povo faça alguma coisa além de se contentar com a esmola metafórica que lhes é dada via carnaval e futebol e, fora isso tudo, o Rio de Janeiro continua lindo e a Bahia continua a terra de todos os santos...

Alheia a toda e qualquer grande ou pequena mudança que possa ter ocorrido na virada do século, Nicole Rocha, uma dona de casa e mãe de dois filhos, aguardava em um laboratório o resultado de um exame de gravidez. Além de estar com 32 anos e cansada de ter filhos, Nicole ainda se lembrava do conselho que um velho amigo de infância havia lhe dado, há algum tempo atrás: ter no máximo dois filhos.

Um detalhe mencionado acima pode não ter passado despercebido por um leitor mais atento: Nicole Rocha, dona de casa. Mas como, dona de casa, se há poucas páginas atrás ela era uma promissora advogada? O fato, meus amigos, é que no universo literário de "O Filho do Meio", estas poucas páginas representaram sete anos e, tanto na literatura quanto na vida prática, sete anos mudam muita coisa.

Um ano depois que a Nicole e o Roberto se casaram, veio o primeiro filho do casal: um menino forte, que foi batizado com o mesmo nome do pai, Roberto. A gravidez, o parto e o período de amamentação trouxeram à Nicole uma curiosa necessidade de passar todo o tempo possível ao lado de sua cria, protegendo-o e amando-o como nunca havia amado ninguém.

Ao permanecer sempre perto do seu filho, acompanhando todas as suas pequenas evoluções como os primeiros passos, os primeiros dentes e os primeiros sons, Nicole percebeu que já fazia um ano e meio que ela não trabalhava no escritório da mãe, como advogada. Seus deveres instintivos de mãe acabaram vindo em primeiro lugar e nenhum outro trabalho lhe dera tanto prazer quanto aquele: cuidar de seu filho.

Quando Robertinho fez dois anos, a Nicole entendeu que poderia estar superprotegendo-o demais, tendo cuidados excessivamente exagerados com seu filho. Mal sabia ela que, para uma mãe, nenhum cuidado com o filho é excessivamente exagerado. Mas, de uma forma ou de outra, ela já se encontrava mais ou menos em condições de confiar o filho a uma babá previamente selecionada e retornar à selva jurídica, ungida pelo beatificado bálsamo da maternidade (com o devido perdão de José Dias — Dom Casmurro — pelo quase-plágio).

Ela só não contava que, antes que começasse a reaquecer as turbinas, tivesse que deixar o escritório novamente, e pelo mesmo motivo: estava grávida, de novo! Começava tudo outra vez: exames, consultas, pré-natal, ultra-sonografia, ginástica pra manter o corpo em cima, desejo de tomar suco de seringüela, vaidade abalada pelo barrigão e, consequentemente, o parto.

O segundo filho da Nicole já veio com um nome: desde que a ultra-sonografia revelara o sexo do bebê, a Nicole já o chamava de Arthur e, quando nasceu e foi levado aos braços da mãe, recebeu em poucas horas de vida, um apelido que carregaria pelo resto da vida: Tuta. Nem ela, nem o Roberto chamavam o filho caçula pelo nome, desde bebê ele já era Tuta, para os pais e para a família toda.

Esta segunda experiência maternal fora igualmente gratificante para a Nicole, sem que se tornasse repetitiva ou estressante. Além disso, o nascimento do Arthur veio com a certeza de que ela se sentia bem mais realizada cuidando dos filhos e da casa do que em qualquer escritório de advocacia.

Era como lhe dizia um velho amigo do século passado: o importante é a satisfação, o prazer, a felicidade! Uma vez atingidos esses fins, não deveriam ser levados em conta os meios utilizados para chegar até eles.

E não havia felicidade maior para a Nicole do que estar perto dos seus filhos, cuidando e transmitindo a eles todo o carinho e atenção que fosse capaz de demonstrar. Além de boa mãe, era uma esposa devotada e uma exímia administradora do lar, desprovida de qualquer recalque ou frustração nesse sentido.

O orgulho de poder contribuir de maneira significativa para a formação dos filhos e a certeza de que estava construindo uma família compensavam bem mais do que qualquer emprego naquilo em que ela gastou 5 anos em uma universidade. Porém, ela nunca estudara para ser mãe ou esposa e nem por isso decepcionava. Pelo contrário, desempenhavam com maestria e prazer esses papéis.

A razão disto tudo poderia ser o simples instinto materno ou mesmo a separação prematura dos pais, que, mesmo tendo ocorrido em um passado remoto, causara-lhe danos que ela procurava reparar agora, podendo dar aos filhos o que não recebeu dos pais: uma família.

O importante é que, em maio de 2001, o Robertinho tinha seis anos e o Arthur três, e todos viviam na mais perfeita harmonia: os dois eram bons filhos, o Roberto era um bom marido e pai, assim como a Nicole, que ia muito bem como mãe e esposa. E era essa Nicole que aguardava o resultado de um exame, temendo estar grávida novamente e assim, concretizar a profecia do velho amigo e xará do seu filho mais novo.

postado por Randall Ferreira Neto às 23:26 | Comments:



(Segunda e última parte do capítulo X, ainda sendo postado pela Blue. E, de acordo com a programação do Randall, o último capítulo vai ser postado na segunda.)

Nicole não via mais sinal de revolta, antiga companheira dele por muito tempo. O motivo dessa ausência era bem simples: Tuta não era mais um filho do meio. Na sua vida não existia mais irmãos e pais, apenas ele e a Laura, que se bastavam e se completavam, num autêntico processo de interação:
- Você viu seus pais?
- Claro que não!
- Nem seus irmãos?
- Ô Nicole, você esqueceu quem eu sou? você acha que ia sair de Ilhéus, dirigir sem parar e ver aquela demonstração de "tiração de onda social" que é a minha família? Põe um troço na sua cabeça, Nicole: eu "despenquei" lá da Bahia prá te ver!
- Porra! Só prá me ver, Tuta?

Ela ficou verdadeiramente emocionada, serviu-se de um longo gole de vinho e passou algumas informações ao Tuta sobre seus irmãos:
- O Serginho tá casado e tem um filho de 3 anos.
- E como é que se chama a criança? Sérgio Neto?
- Não, Arthur, o Serginho pôs o nome do irmão que ele julga sumido. Você não vai ver seu sobrinho-xará?
- Ah! Nem a pau! Eu gosto pra caralho de crianças, mas não tô nem a fim de criar vínculos com a minha família, do jeito que está, tá bom.
- Eu achei que você gostaria de conhecer meu afilhado.
- Você é madrinha dele?
- Sou. Eu e o Oscar somos os padrinhos do Arthur. Gozado, né?
- Muito, muito gozado. E o Oscar, como ele está? Ele ainda namora com a Tatiana?
- Porra, como é que você lembra o nome dela?
- Não sei, por acaso, me ocorreu o nome dela...
- Sei. Eles namoram sim. Tão falando em noivado já.
- Que bom...

O fato é que a noticia de que o Serginho havia feito uma espécie de homenagem a ele o pegou desprevenido. O Oscar fora bem instruído, nem assim usou o "bat-fone". No entanto, o assunto tomou outros rumos igualmente interessantes:
- Você não sabe quem pintou na barraca ano passado!
- Quem?
- O Júnior!
- O meu Júnior?
- Bom, seu eu não sei, mas é esse Júnior mesmo. Putz, o cara tem um emprego fudidaço numa multinacional em sampa! Dá prá acreditar? O Junão, 28 anos nas costas e já é um advogado super bem-sucedido! Ele tava de lua-de-mel em Itaparica e resolveu dar uma esticadinha até Ilhéus e Porto Seguro. Cara, eu não acreditei: o Júnior na minha barraca, com a esposa: Uma gata! Loirona, grande...
- É... Tuta? Hãn... Esses detalhes, você pode omitir sem prejuízos ao fato narrado, tá?
- Tá bom, tá bom. Foi muito 10, nós dois e as esposas se divertindo em Ilhéus. Eles acabaram ficando na casa de praia do meu sogrão (por conta) por uma semana, foi um barato!

A Nicole não se atreveu em querer saber das minúcias, pois teve medo do Tuta mencionar algum bacanal que possa ter rolado. Daqueles dois ela esperava tudo! Mas não consegiu se conter ante a perspectiva de imaginar que poderia ser ela a acompanhar o bem-sucedido Júnior naquela empreitada... de uma certa forma, foi bom saber que ele estava bem, pois conservava um carinho enorme pelo primeiro namorado.

Havia muito o que falar e, obviamente, uma noite e algumas garrafas de vinho seria muito pouca pra compensar a saudade que aqueles dois deveriam estar sentindo um do outro.

Inevitavelmente, muitos assuntos vieram a tona, como o pulo do penhasco, a troca de provas, o primeiro papo cabeça no Araguaia, o telefonema dele de Camburiu, o pênalti que ele perdeu, o pênalti que o Zico perdeu, o lance com a Paola, as conferencias com "Baco", a travessia da avenida, o namoro com o Júnior, o Hawai, o aborto, entre outros. Ela só não falou a verdadeira razão do "eu te odeio", talvez por que ele não perguntou. E ele não perguntou por que tinha medo da resposta, logo, "eu te odeio" ficou, por assim dizer, esquecido.

Quando o papo ameaçava cair no baixo-astral e o Tuta fazia menção de ir embora, a Nicole se aventurou em perguntar:
- E a satisfação que você procurava, Tuta, encontrou?
- Encontrei, sem dúvidas!
- E o prazer?
- Total!
- A felicidade?
- Em seu estado pleno! Sem exageros, Ni, atualmente prá minha vida ser perfeita, só falta você, só você!

Não havia mais nada a dizer. Eles eram amigos! A última despedida fora trágica, entretanto, esta vinha apagar sentimentos nebulosos e trazer a inevitável confirmação: Tuta e Nicole seriam amigos prá sempre.
- Ni?
- Fala, Tuta.
- É só um toque, uma espécie de conselho, saca?
- Pode falar, Tuta!
- É que... Bem, você vai casar né?
- Vou, em duas semanas.
- Pois é. Como todo casal, você pretende ter filhos, correto?
- Correto.
- Esse é o "x" da questão: tenha, no máximo, DOIS filhos. Evitem o inconveniente de terem um filho do meio. Lembra de mim, Ni, não queira Ter um filho gratuitamente rancoroso não, na boa! Só dois, tá?

A Nicole não teve como não se comover com aquilo: o Tuta sabia que tinha problemas, ele tinha consciência de seus erros provocados por um sentimento atávico de revolta sem maiores justificativas. Sem muito o que dizer ao filho do meio, que ela aprendeu a adorar exatamente com todos os grilos e neuras, só pôde concordar:
- No máximo!
- No máximo! Agora eu vou nessa!
- Agora? Já tá amanhecendo e você bebeu prá cacete...
- Nicole?! Como você pode ter esquecido? Deus protege os bêbados e as crianças!
- Não, não é assim!
- É claro que é! Se não, como você acha que escapamos do pulo no penhasco?
- Eu sei, Tuta, não tô contestando a eficácia desse ditado maluco seu, não, mas minha mãe falou que Deus protege os loucos, os bêbados e as crianças.
- Então é assim?
- É.
- Melhor ainda! Agora eu nem preciso beber pra contar com a proteção divina — abrindo os braços e exibindo um largo sorriso, concluiu — ou você conhece alguém mais louco do que eu?

Também com um enorme sorriso no rosto, a Nicole respondeu:
- Não, Tuta. Não existe ninguém mais maravilhosamente louco que você!

Então, antes que eles se abraçassem pela última vez no Santuário, a mesma frase saiu da boca de ambos, num tom de voz quase gritando de tão sufocada e contida que estava. No mesmo exato momento, eles ouviram-se dizer:
- Eu te amo!

Caíram na gargalhada, deixaram uma lágrima rolar pelo rosto, se abraçaram e se despediram. Os dois estavam deixando o Santuário, pela última vez...

postado por Randall Ferreira Neto às 23:26 | Comments:



X
Epílogo lógico


O mês era novembro. O ano, 1994. A Nicole estava com 25 anos e há 3 já era uma autêntica advogada, trabalhando no escritório de sua mãe.

Há 3 anos também, ela conheceu Roberto, um médico residente, hoje já com 27 anos e uma boa clientela. Os dois namoraram dois anos, ficaram noivos e, dali a duas semanas, iriam se casar.

Porém, não era o casamento que merecia sua atenção naquele momento. Um cartão-postal de 1992 e um telegrama recém-chegado lhe consumiam todo pensamento. Ambos haviam sido mandados pela mesma pessoa: o filho do meio!

O cartão postal era do Havaí e dizia:
"Você vai acreditar, Ni, mas aqui é mesmo um sonho! Apesar da beleza e das ondas, eu constantemente fecho os olhos e sonho que você está aqui comigo. Eu nunca te esqueci, e ontem, pulei de um penhasco...
Te adoro e tou com saudades!
Ps: Você ainda me odeia?
Havaí, 23 de julho de 92."

O telegrama dizia:
"Você vai casar? Esteja hoje no Santuário, às 18hs, para nós vermos o pôr-do-sol. Até lá."

Cinco anos haviam se passado desde a partida do Tuta e, além da curiosidade, a Nicole estava ansiosa e feliz em vê-lo novamente. Ela olhou no relógio: seis horas! Hora de rever velhos companheiros...

Ao chegar no Santuário, um arrepio percorreu-lhe a espinha quando ela viu o amigo de costas, segurando uma garrafa de vinho tinto:
- Eu sou trouxa, né, Ni? Esqueci do horário de verão. O sol só vai se por às sete.

O impacto da sua presença e da sua voz foram suficientes para encher os olhos da Nicole d'água, enquanto ela observava as pequenas mudanças que ocorreram no amigo.

Os cabelos batiam no ombro, os braços fortes e as costas largas indicavam que ele havia se tornado um surfista. A pele curtida e bronzeada realçavam os olhos verdes, e um brinco na orelha esquerda compunham o visual. Mas ainda era o mesmo Tuta!
- Você se lembra do que me falou aqui, há cinco anos?
- Não, Tuta, eu não lembro!
- Nem eu...

Só então eles se abraçaram, deixando o choro contido escapar, antes de reiniciarem a conversa:
- Você vai mesmo casar, Ni?
- Vou, Tuta. Quem te falou?
- O Oscar. Eu deixei um telefone prá ele me ligar em caso de morte.
- Mas ninguém morreu?!
- Casamento é quase a mesma coisa.
- Você não tá casado?
- Não, senhora! Eu vivo em regime concubinato, nada de igreja, cartório, véu e grinalda.
- Tem filhos?
- Ficou louca? Você faz idéia de que tipo de pai eu seria?
- O pior ou o melhor de todos. Me conta as novidades, o que você faz?

Nesse momento, ele lhe entregou um cartão postal de um barzinho de praia super-transado, escrito nas costas: "Barraca do Alemão — Ilhéus/Bahia".
- O que que tem esse cartão, Tuta?
- Esse é o meu estabelecimento!
- Você tá me dizendo que essa barraca é sua? Mas você não ia pra Salvador?
- Tipo, mudei de idéia... a barraca é o maior barato, uma sacada super original, funciona dia e noite e é conhecida como a barraca dos 3 "s".
- 3 "s"?
- Suco, sanduba e sonzera! Lá na Bahia, só rola olodum, timbalada, Netinho, etc... No meu boteco só rola o bom e velho rock'n roll, intercalado com clássicos da MPB. É um excelente negócio, Ni. Me dá uma renda estável, que me possibilita pegar onda, fazer desenhos, cursos... Além de não ter horário, patrão ou telefone celular "me seguindo" pra todo o lugar.
- Há quanto tempo você é empresário?
- 3 anos.
- Faz 3 anos que eu me formei e conheci o Roberto.
- Roberto?
- Meu noivo. O mesmo nome do meu ídolo, o Roberto dinamite: coincidência, né?
- Demais.
- Onde você arrumou dinheiro pra se estabelecer?
- É uma longa estória...
- Nós temos muito tempo, vou buscar o vinho...

Ela buscou mais vinho e o papo continuou rolando solto. Mais solto ainda, diga-se de passagem, com a simbólica ajuda do vinho.
Obviamente, a casa do Tuta e da Laura em Ilhéus e o estabelecimento comercial-praiano, foram generosas doações do sogro contraventor à filha querida e ao genro adoravelmente maluco.

O bicheiro também comprou uma casa em Ilhéus e passava algumas temporadas por lá, não se furtando de ficar atrás do balcão da barraca do genro, preparando deliciosas caipirinhas e suculentos tira-gostos.

Apesar do substancial "pontapé-inicial" dado pelo pai da Laura, a Barraca do Alemão era um estabelecimento que dava um bom lucro, jamais necessitando de outras contribuições. Aliás, a barraca atingira um estágio tão respeitável de sucesso, que, assim como o lendário "Vesúvio", tornara-se um cartão-postal da cidade, como constatava a Nicole.

Como nenhum sucesso ocorre pelas graciosas mãos do acaso, com a Barraca do Alemão não foi diferente. Foi preciso muito trabalho, aliado à criatividade que sempre foi característica marcante no Tuta:
- Eu faço altas festas, Ni. Tudo meio destoante ao folclore baiano, bem original. As minhas festas de "Halloween" e Dia dos Namorados já se tornaram tradicionais em Ilhéus. Além do Réveillon Havaiano, que, modéstia a parte, arrebenta! Tem também os campeonatos de vôlei, exibição de capoeira e desfile de biquíni que a gente promove. Agora, de tudo, o que eu mais curto é a "Cacau Surf Cup", que nós realizamos no primeiro fim de semana do ano. Vêm surfistas de todo o Brasil e no final, rola a "Cacau Surf Party", aonde? Na Barraca do Alemão, claro! Não dá outra, Ni: o agito em Ilhéus é no meu boteco!

Tuta falava isso com o orgulho que só aqueles que realmente vencem na vida sabem possuir. No Brasil, onde tudo parece ser feito em série, um pouco de originalidade e força de vontade fazem toda diferença.

E a diferencia estava ali: o Tuta sonhador transformara-se no Tuta-vencedor, mesmo remando contra a maré. À sua própria maneira, ele venceu na vida:
- E você já ganhou alguma "Cacau Surf Cup"?
- Não. Eu não participo.
- Por quê?
- Porque eu acho toda forma de competição "baixo-astral". A gente compete a vida inteira, na família, no trabalho, no colégio, é a mesma coisa: Quem é o mais bonito, o mais rico, o mais forte, em outras palavras: Quem é o mais? Eu é que não sou! Eu surfo por prazer, não prá mostrar aos outros ou ao meu ego que eu sou melhor que esse ou aquele surfista! Só que tem a verdadeira mentalidade do mar, saca que uma boa onda vale bem mais que um troféu ou uma medalha.

postado por Randall Ferreira Neto às 22:55 | Comments:



IX
"Eu te odeio" entre parênteses


Com o perdão do leitor, o dia 21 de dezembro será visto novamente aqui neste livro. Porém, para preencher algumas lacunas que foram propositadamente deixadas em branco, o cenário será o apartamento da Nicole, uma menina de 20 anos, que acordou com uma sensação estranha, que ela tratou de partilhar com sua mãe:
- Mãe, o quê que você acha do Tuta?
- Ora, Nicole, você tá cansada de saber que eu adoro o "maluco". — o adjetivo "maluco" proferido pela "tia" Marta possuía um cunho carinhoso e não pejorativo, pois ela sempre gostou do inconseqüente amigo de sua filha.

Depois que passou a conviver mais amiúde com o Tuta, Marta afeiçoou-se ainda mais por ele, fazendo com que uma boa amizade surgisse entre os dois, em virtude da política. Com a amizade, pintou o apelido "maluco", devido ás atitudes pouco convencionais do filho do meio. Como ela não fazia o menor esforço de esconder sua estima pelo "maluco", não entendeu a razão da pergunta da filha, que começou a justificar-se:
- Acho que eu gosto do Tuta, mãe.
- Você deve estar doida... é claro que você gosta dele!
- Não, você não entendeu. Eu gosto dele de um jeito diferente.
- Jeito diferente?!
- É. Acho que, depois de tantos anos de convivência, da prá sacar que o que rola entre a gente não é só amizade.
- E o que é?
- É algo mais forte.
- Amor?
- Pode ser.
- E você descobriu isso hoje?
- Não, eu já vinha sacando há algum tempo, mas hoje eu resolvi te pedir sua opinião.
- Minha opinião? Bom, eu acho que você não deve se precipitar e ir achando que um namoro entre vocês dois pode ser dado como certo. Acho que é melhor saber a opinião dele!
- Sei não, mas ele deve sentir o mesmo que eu. De repente tá rolando um clima há muito tempo e só agora eu me dei conta.
- Você está supondo...
- Mas eu tenho fortes motivos prá supor.
- Por exemplo?
- Por exemplo? O ciúme que ele tinha do Júnior, por exemplo. Tá certo que depois o Tuta ficou amigo dele e transformou um pacato monogâmico num frango devasso, o Júnior desandou a comer todas, um horror! Mas quando eu namorava com ele, o Tuta tinha um ciúme injustificado do Júnior, que você interpreta como o que?
- Como uma série de coisas. A gente também sente ciúmes de amigos.
- Qualé, mãe!? Tá querendo cortar o meu barato? Eu sei que a gente se gosta! Já rolou até um beijo!
- Você e o "maluco"? Um beijo? Quando?
- Há! Nós tínhamos uns 12, 13 anos e rolou sob o pretexto de ser um teste. Mas, tanto eu quanto ele sabemos que não foi só um teste!
- 12, 13 anos? Cuidado...

Antes que a tinha Marta continuasse, o interfone tocou e ela foi atender, surpresa com a revelação da filha, que, possivelmente, estava sendo contagiada pelo "maluco"; mesmo assim, não perdeu muito tempo analisando a reação da filha, nem tampouco sua descoberta, pois, afinal de contas, também houve uma época em que ela teve 20 anos... Depois que conversou ao interfone, voltou a falar com a filha:
- Adivinha quem era?
- Quem?
- O "maluco"! Ele me parecia um tanto feliz e disse que precisava falar com você no sanitário...
- Santuário!
- O que é isso?
- O teto do prédio, mãe. É lá que a gente leva a maioria dos papos, desde os mais importantes aos mais banais.
- Pois é, ele falou que precisava lhe falar com urgência, lá nesse santuário.
- Mas agora tá chovendo!
- Por que você acha que eu o chamo de "maluco"? Vai lá, Nicole! Aproveita e comunica a ele o que você descobriu.
- É, eu vou lá. Tchau, mãe!

Despediu-se com um beijo no rosto da mãe e subiu no Santuário, onde o Tuta já se encontrava e parecia não dar a mínima para a chuva que caía. Ao vê-la, seu rosto iluminou-se num sorriso que denunciava ostensivamente, a extrema felicidade que sentia:
- Ni! Vem aqui! Eu tenho uma grande novidade prá te contar!
- Tem? Eu também tenho!
- Então conta.
- Não, conta você. Foi você quem me chamou aqui, não foi!? Então a preferência é toda sua. Com a palavra...

Se ela soubesse que essa seqüência na ordem das novidades fosse fazer tanta diferença, não teria hesitado em contar a sua primeiro:
- Conta, Tuta. Depois eu falo qual é a minha.
- Eu vou embora.
- Como, embora?
- Você lembra que eu te falei daquela grana preta que meu pai ia me dar?
- Lembro. Ele deu?
- Deu, Ni: 53 mil dólares! O meu passaporte prá liberdade!
- Há! Agora eu saquei: você vai sair de férias? Umas férias prolongadas, tipo Havaí?
- Não, Ni, você não sacou. Eu tô indo embora definitivamente.

O silêncio que se fez depois serviu para que o Tuta ouvisse o que ela tinha a lhe dizer e para que a Nicole tentasse não acreditar no que estava escutando.
- Como, ir embora, Tuta? Embora pra onde?
- Pra praia. Eu vou realizar o meu projeto de vida: morar na praia; vou passar em Curitiba e ver se a Laura quer vir comigo.
- A filha do bicheiro?
- Qualé, Ni? O que me importa a profissão do pai dela?
- Você acha que só 50 mil dólares são suficientes prá garantir uma boa-vida de vagabundagem a beira mar?
- Claro que não, Nicole! Eu vou me virar, vou arrumar um emprego, sei lá! Essa grana é só prá comprar um apê e montar um negócio prá mim.
- Negócio? Que espécie de negócio?
- Não sei, só sei que eu não vou ser apenas "mais um" na multidão.
- E a faculdade?
- Foda-se! A faculdade é legal, mas não é lá que estão as respostas que eu procuro.
- E quais são suas perguntas?
- Ah, são várias. Talvez essa seja mais uma: quais são as perguntas que me fazem procurar respostas pelo mundo?
- Você tá agindo como um doido, um porra-louca!
- E o que você esperava de mim? Entenda Ni: eu não quero emprego, terno e gravata, relógio de ponto, BIP pendurado na cintura e patrão enchendo o saco! Eu não quero casar na igreja, constituir família e ter que aturar os almoços de domingo, tão hipócritas quanto tediosos! Será que, depois de tanto tempo que você me conhece, ainda não sacou? O futuro prá mim vai bem mais além de um bom apartamento, carro do ano na garagem, colocar chifre na minha esposa e ter uma ação do country clube. A vida prá mim vai ter que ser algo mais do que isso tudo!
- E como você quer que seja? O ano inteiro transcorrendo como um eterno carnaval, pra você pegar onda e coçar o saco o dia todo?
- Seria massa! Mas eu não sou tão lunático assim. Tudo que eu quero da vida é: prazer, felicidade e realização pessoal.
- Mas isso, todo mundo quer!
- Eu sei. Só que, "todo mundo" busca isso através da grana, eles acham que o dinheiro é a fonte de todo o prazer, felicidade, etc... Como eu não sou "todo mundo", vou fazer com que, cada pequena coisa que eu fizer me deixe satisfeito, com vontade de acordar no outro dia com a mesma felicidade, o mesmo tesão pela vida no dia anterior.
- E você já tem uma idéia de como vai fazer isso?
- Eu só sei que, eu quero acordar todo dia, pegar a minha prancha, olhar o mar e dizer: bom dia, Netuno! Hoje você vai me dar umas ondas melhores que as de ontem!
- Só isso? E quando você pegar todas as ondas do seu sonho?
- Eu acho difícil disso acontecer, mas se acontecer, eu mando Netuno a puta que o pariu, vendo minha prancha, compro uma asa-delta, subo todo dia num morro e digo: bom dia, Ícaro! Hoje eu vou dar um salto melhor do que o de ontem! E assim eu vou levando a vida...
- Assim? Alternando em ondas e saltos em Camburiú?
- E quem disse que eu vou prá Camburiú?
- Não vai? Você adora lá...
- Mas já empapucei! O lance é Salvador!
- Salvador?
- É claro, Ni. Eu vou prá Bahia de Gil, Caetano, Dorival e João Gilberto. Aquela simpatia, a sonoridade baiana que emana do efervescente caldeirão cultural de lá. Já pensou o Tutão aqui no meio da preguiça? A Bahia de Jorge Amado vai ser a minha "Pasárgada", Ni: "Lá sou amigo do rei, terei a mulher que eu quero, na cama que escolherei". Da licença, Ni, mas eu vou me embora pra Pasárgada!
- Eu não acredito. É simplesmente inacreditável que você esteja deixando Goiânia, sua família e a faculdade prá viver como rato de praia naquele berço do subdesenvolvido nacional. Bahia, Tuta! A porta de entrada da escória humana que vive hoje no Brasil, uma sucursal de Senegal?
- O que você tem contra a Bahia de todos os santos, menina-Nicole?
- Pára de me provocar, falando com esse sotaque baiano! A minha bronca não é com a Bahia em si, e sim com sua idéia estapafúrdia de morar lá! O que você vai fazer na... Bahia???
- Dormir, curtir uma rede...
- Eu tô falando sério com você!!!
- Não grita comigo!!! Enquanto você estiver falando sério eu vou levar na curtição! Pega leve! Eu tô aqui, te dando a noticia em primeiríssima mão, na base da exclusividade e você só tá botando prego! Qual é a sua?

Essa era a "deixa" que ela precisava, era agora ou nunca! Se ela não expusesse o verdadeiro motivo de estar agindo como estraga-prazeres, estaria perdendo-o prá sempre. Mas será que já não o havia perdido? Ele parecia verdadeiramente apaixonado, e agia com o firme propósito de ir prá terra da capoeira e do olodum com a Laura. Com certeza, ela não tinha o direito de interferir em seus planos, mesmo que, á primeira vista, parecessem inevitavelmente fadados ao fracasso. Ela não tentaria cortar suas asas, por mais fortes que fossem os sentimentos recém descobertos:
- Você já pensou que pode quebrar a cara, Tuta? E se tudo começar a dar errado? Você irá abraçar a carreira do seu ilustre sogro?
- Talvez. Eu não vou negar que, pra ficar com a Laura, eu seja capaz de entrar no "negócio". Mas essa não é a única opção, Nic. Se eu me fuder de verdade, tenho cara de pau suficiente prá meter o rabo entre as pernas e voltar à antiga casa paterna, com os bolsos vazios e a cabeça cheia de experiências, como um autêntico filho pródigo. Isso é bíblico, Nic, não falha!
- Desde quando você lê a Bíblia?
- Eu sempre li. É uma leitura interessantíssima, o maior barato... eu nunca tive religião, mas sempre acreditei em Deus, o mesmo Deus da Bíblia, do Corão...
- Tá bom, Tuta! Corta esse papo de igreja! Mesmo não acreditando em Deus, eu vou rezar prá te ver voltando prá Goiânia, quebrado e fudido, tendo que pedir benção a seus pais e passando o resto da vida tentando recuperar o tempo perdido!
- É isso que você me deseja na última vez que me vê, Ni?
- É a última vez que eu te vejo?!
- Pode ser que sim!

Nesse momento, prá não cair num patético choro de revolta, a Nicole disse exatamente o oposto do que seu coração sentia:
- Tudo bem, tudo bem. Não precisa esquentar não, pode ir embora pra onde você quiser! Mas tem um detalhe, Arthur: eu nunca mais quero ver a sua cara! Some da minha frente! Eu te odeio!

postado por Randall Ferreira Neto às 23:35 | Comments:



16 de Novembro de 89

Passado o episódio do aniversário do pai do Tuta, estabeleceu-se uma barreira invisível (mas quase perceptível) entre ele e seus pais. Além da falta de assunto e a antipatia que ele nutria por ambos, o Tuta só pensava nas eleições. Ele não cometia a estupidez de radicalizar-se na esquerda, pois achava os ultra-esquerdistas um porre, com seus chavões e frases feitas.

Politicamente, o Tuta era como a tia Marta: um simpatizante da causa socialista, nada mais. Votaria no Lula por coerência, apesar de achar o Roberto Freire um bom candidato e o Gabeira inteligente e engraçado. Porém, o voto consciente e visando mudanças era no Lula.

Só que, além de ficar com a consciência tranqüila pelo deu voto, o Tuta sentiu que precisava ousar e fazer alguma coisa que valesse a pena votar no Lula e, sobretudo, agir como quem vota no Lula.

Alguns planos vieram e se foram da sua cabeça, e apenas um, concebido nas véspera das eleições, o satisfez. Na madrugada do dia 14 para o dia 15 de Novembro foi colocado em prática...

Aquele foi um dia cheio: votar, fazer boca-de-urna, fiscalizar, analisar o movimento nas ruas, etc... Ao final da tarde, o Tuta estava pregado e confiante, apesar de tudo indicar uma batalha acirrada entre o Lula e o Brizola pela vaga no segundo turno, pois uma já estava garantida: Fernando Collor.

Por volta das oito horas da noite, o Tuta chegou em casa e deu de cara com seu pai deitado no sofá com um copo de uísque na mesinha de centro. Tentando fingir que não o vira, tomou a direção do seu quarto em silêncio, sendo interrompido pelo pai :
- Então o nosso intrépido "Che" Guevara chegou!
- O papo é comigo?
- Mas é claro! Eu poderia ter a honra de conversar com meu ilustre filho?
- Você tá bêbado, pai?
- Só um pouquinho.
- Eu tenho a mania de achar que todo bêbado merece atenção, mas como o bêbado em questão é você, pai, serei obrigado a abrir uma exceção: Não tenho nada prá falar com você!
- Não?! Bom, se você não quer falar comigo, talvez prefira falar com a polícia.
- Polícia?! — Arthur fingiu genuíno espanto e prosseguiu — Que papo é esse de polícia? Cai na real, pai! A ditadura acabou! Você não pode mandar prender uma pessoa só por ela votar na esquerda!
- Eu sei, Arthur. Mais eu acho que ainda tenho o direito de mandar prender um ladrão!
- Peraí! Agora quem vai invocar a polícia sou eu: a menos que você tenha provas, acabou de cometer uma calúnia!
- É mesmo? Você quer provas?
- Quero!
- Quem mais estaria interessado em roubar nossos títulos de eleitor?
- Isso são evidências, não provas, eu quero provas conclusivas!
- Quer? Então quem sabe a polícia te fornece essas provas? — indagou Sérgio, encaminhando-se para o telefone e dando a entender que iria ligar para a polícia.

Todavia, antes que começasse a discar, o Tuta tirou os títulos do bolso e falou para o pai:
- Pode parar com o teatrinho, pai! Tão aqui os títulos: pode pegar, engolir, enfiar no cu ou mesmo votar no Collor no segundo turno. Eu não roubei nada não, só tomei emprestado.
- Tomou emprestado? E eu posso saber pra que?
- Sei lá, tava afim.
- "Sei lá"? "Tava afim"? Meu filhinho, vem cá. Eu fui um pouco duro com você, não é caso pra polícia, não — após uma pequena pausa, Sérgio retomou o discurso, fazendo um esforço descomunal prá não explodir de raiva — o seu caso é pra psiquiatra!
- Ih! Lá vem ele...
- Não, meu filho, é serio! O que que você acha de uma temporada no hospício? Camisa-de-força, cela acolchoada, choque elétrico... Quem sabe uma lobotomia? Você ia voltar mansinho prá cá. Tá afim?
- Corta essa, pai! Aqui nessa casa só eu tenho direito de fazer humor-negro. Mas a tentativa foi boa, você tem futuro! Agora eu vou pro meu quarto.
- Não vai não!

O tom de voz amistoso desaparecera. Sem ter nada a perder, o Tuta resolveu ficar ali e ouvir o pai, desde que ele não lhe enchesse muito o saco:
- Me responde, Arthur: o que que eu e sua mãe fizemos prá merecer tudo isso?
- O Oscar.
- O quê?
- Vocês fizeram o Oscar. Eu era o caçula e hoje não sou nada. Existe o mais velho e o caçula, entre eles, um vácuo chamado Arthur.
- Você realmente acredita nisso? Que a gente te discrimina?
- Lógico! E o pior é que não resolve eliminar o Oscar, pois o estrago já foi feito: os grilos, recalques e o desprezo foram os maiores presentes que eu recebi de vocês. Atitudes como a de hoje, são meras demonstrações de extrema gratidão, pa-pai!

Sérgio estava estupefato! Mesmo desconfiando que o Arthur tivesse um certo grilo em relação à família, não fazia idéia que tudo se tratava de um caso puro e simples de esquizofrenia-parnóica. Loucura mesmo! O lance de celas acolchoadas e choques era um caso a se pensar.

Como constatou que o filho era um pirado de carteirinha, resolveu agir como tal, provocando-o:
- Eu só fico triste em saber que, apesar dessa tua atitude subversiva, típica de um baderneiro comunista não resultou em nada. Nós todos votamos usando a carteira de identidade.
- "Atitude subversiva"? "Baderneiro-comunista"? Você tem uma espécie de dialeto, é? Tem professor ensinando a agir, falar e pensar? É incrível! direita ou esquerda; revolucionários ou reacionários; vocês, radicais, são todos iguais: um bando de mulas bitoladas e idiotizadas por ideologias baratas. Qual a diferença entre Fidel Castro e Franscico Franco? E o cultuadíssimo Lênin, por que ele é tão melhor que o Pinochet? Ambos são ditadores, opressores! O que é o muro de Berlim? É uma cerca de curral! É um das grandes vergonhas da humanidade! Falta originalidade, criatividade e, sobretudo, inteligência à esses malucos que brincam de política. Pra mim, estão todos na mesma vala comum de um discurso hipócrita sobre liberdade, igualdade e fraternidade!
- Muito bonito o seu discurso, Arthur, tô até arrepiado! Só lamento lhe dizer que, a despeito de todos o belos ideais da esquerda, o Collor ganhará.
- Eu não acredito. Sinceramente, eu prefiro não acreditar que, depois de tantos anos na ditadura, o povo brasileiro vai deixar se enganar novamente. Em que o Collor se apóia prá ganhar do Lula ? Só mesmo dizendo balelas do tipo "vai ser instaurado o comunismo e pessoas estranhas vão morar em suas casas..." ou uma ainda pior, que é dizer que o PT vai confiscar a poupança do povo, onde já se viu isso? É com engodos e falácias que o seu candidato pretenso chegar à presidência?
- Eu vou te dar um conselho, meu filho: jamais subestime a burrice do povo brasileiro! Quando eu falo "povo" eu estou me referindo ao mais baixo estrato da população, a pobreza mesmo! Eu vou votar no Collor por quê me convém, mas eles, coitados! Como você falou, serão mais uma vez enganados! Espere e você verá!
- Não, pai, eu não vou simplesmente esperar. Eu ainda acredito naquela célebre frase: "Quem sabe faz a hora, não espera acontecer".
- Outro engano seu. O célebre autor dessa frase foi exilado, torturado, submetido a uma célebre lavagem cerebral e hoje é um célebre desconhecido! Vote no Collor, Arthur, a celebridade, às vezes, cobra um preço muito alto. Vote no Collor!
- Não, pai, eu vou votar no Lula. A celebridade pode cobrar um preço caro, mas, olhando prá você, eu vejo que o preço da mediocridade é muito maior!


*****


21 de dezembro de 89

Se dependesse do Tuta, aquele seria o último papo que ele teria com o seu pai, um papo agressivo e contundente, sem vencedores. Pai e filho sairam daquela conversa definitivamente derrotados pela mágoa. Porém, o destino encarregou de colocá-los frente-a-frente de novo para resolverem um assunto inadiável: Sérgio repassaria ao Arthur a parte que lhe cabia (como filho) na venda do prédio onde funcionou por muito tempo o Diplomata's bar e restaurante: 53 mil dólares.

Permita-me esclarecer o que levou um empresário falido a doar uma quantia tão vultuosa aos seus filhos. A questão é que, após o trágico acidente automobilístico envolvendo os pais de sua mulher, Sérgio deixou de ser um empresário falido e passou a ser o marido da herdeira de um patrimônio gigantesco, que incluía: fazendas, gado, apartamentos, dinheiro aplicado, lotes e prédios comerciais.

Mesmo tendo outros irmãos, a parte da herança que coube à Maria Clara representava uma quantia tão monstruosa, que nem mesmo o Sérgio com sua enorme capacidade de perder dinheiro conseguiria acabar. Era grana que não acabava mais, como constatou o Tuta, temendo que, de agora em diante, além de chato e idiota, seu pai também se tornasse arrogante e prepotente.

Entretanto, quando Sérgio se deu conta da situação privilegiada em que se encontrava, tomou um atitude que surpreendeu a todos: desfez-se do prédio comercial que herdara do pai e dividiu o dinheiro em partes iguais entre os filhos.

Foi na manhã do dia 21 que o Tuta recebeu o cheque das mãos do pai, numa conversa breve...


*****


21/12/89 10hs da manhã

Tuta sentou-se na mesa da sala em frente a seu pai, que abria o talão de cheque e puxava assunto com o filho:
- E aí, Tuta? Como é que vai ser?
- Como é que vai ser o que?
- O que quê você vai fazer com o dinheiro? O Serginho vai comprár um apartamento, o Oscar vai guardar prá fazer uma pós-graduação no exterior, e você? Vai fazer o que com a grana?
- Não é da sua conta.
- Como?!
- Você ficou surdo? Eu nunca lhe dei satisfação e não vai ser só por quê você tá me dando uma grana preta que eu vou trair os meus princípios. Ser for preciso, eu também falo que vou comprar um apartamento ou fazer um curso no exterior, mais o verdadeiro fim que eu vou dar ao dinheiro você não vai saber.
- "Você"? Por que você não esta me chamando de "senhor"?
- Cai na real, pai! Eu nunca te chamei de senhor.
- Não?
- Não.
- Nunca?
- "Never".
- Pois deveria chamar.
- Eu sei, e você deveria ter feito um monte de coisas que um pai decente faz, a começar ao respeito à minha mãe, mas eu não vou por as cartas na mesa, não. Vamos combinar uma anistia, tá? Eu esqueço tudo, você esquece tudo, me dá o cheque e eu me mando, falou?
- Mas Arthur, agora os tempos são outros, eu vou ter mais tempo pra ficar com vocês e, principalmente com você. — Sérgio não notou a expressão de tédio profundo do filho e continuou — Nós somos adultos, Arthur. Quem sabe a gente não inicia um relacionamento que não seja necessariamente de pai e filho, e sim de amigos.
- Pai?
- Fala?
- O cheque.
- Mas Arthur...
- O cheque, por obséquio!
- Tudo bem.

Quando segurou pela primeira vez aquele pedaço de papel valiosíssimo, o Tuta sentiu que sua liberdade seria conquistada e ele não passaria nem mais 24 horas naquela casa. Mesmo sem ter a menor idéia do que fazer com a grana, o Tuta foi a uma agência de turismo e comprou uma passagem para o primeiro vôo do dia seguinte com destino a Curitiba. Mais precisamente, com destino à Laura...


*****


21/12/89 madrugada do dia 22

O filho do meio não consegue pegar no sono, e a razão é uma só: Nicole. Ele não conseguia compreender porque ela fora tão hostil e reprovara de maneira tão veemente sua decisão de deixar Goiânia. "Eu te odeio!" foram as últimas palavras dela, mas o Tuta fazia todo esforço do mundo prá acreditar que não foram ditas com sinceridade...

Tuta acordou no outro dia, pegou as poucas roupas ajeitadas numa sacola, escreveu um número de telefone no papel e entrou no quarto do Oscar, acordando-o:
- Oscar, acorda.
- Tuta, que sacola é essa, vai viajar?
- Vou, vou dar uma sumida. Se o pessoal daqui de casa perguntar, eu viajei e só, na medida do possível eu vou mandar notícias.
- E pra onde você vai?
- Não sei. Vou passar em Curitiba prá pegar a Laura, e de lá, vou prá algum lugar. - Entregou o papel ao irmão e falou -Esse é o telefone dos pais da Laura; em caso extremo, mas extremíssimo mesmo, eles vão saber onde me achar. Se você der esse telefone ao meu pai ou minha mãe, eu volto aqui e te arrebento, falou?
- Saquei.
- Então falou...
- Tuta?
- O que?
- Posso te dar um abraço?
- Acho que não. É melhor não usar a hipocrisia prá marcar essa despedida que, nem é uma despedida. Numa boa, Oscar: não há nada que justifique um abraço de adeus entre nós.
- Tem razão, eu nunca fui seu irmão, né?
- Foi. E sempre vai ser. Eu é que nunca consegui ser nem irmão, nem filho de verdade. E nunca vou ser, infelizmente...
- Não encana não, Tuta. Se manda e vai encontrar seu mundo em algum lugar. Eu volto a te ver?
- Pouco provável. E lembre-se: só use o telefone em caso de morte, falou?
- Falou. Boa sorte.
- Valeu...

Foi uma despedida que superou as expectativas do Arthur, pois o papo com o irmão demorou mais do que ele esperava. Deixou o apartamento, entrou no elevador olhando a consagrada foto dos quatro, e tentou afastar a frase que ecoava em seu cérebro: "eu te odeio"!

postado por Randall Ferreira Neto às 23:00 | Comments:



21 de dezembro de 89

Havia mais de um ano que o Júnior fora embora. Um ano sem dar notícias. Um ano inteiro que passou para o Tuta sem farras e companheiros. A velha e eterna foto permanecia ali, uma imagem que "falava", e o Tuta imaginava que as cópias que ele deu ao Júnior e o Crustáceo também "falavam" com eles.

No início de 89, ele passou as férias no monumental apartamento do pai da Laura, um mês completo: mordomia, surf, sexo, e tudo mais que Camburiú e a companhia da Laura lhe proporcionavam. Os planos que eles faziam agora eram mais concretos que antes e eles falavam em morar juntos com maior freqüência.

De volta a Goiânia mais uma vez, o Tuta constatou o quanto estava definitivamente de saco cheio de tudo. Hoje, seu saco continuava cheio, mas ele sabia que não passaria nem mais 24 horas em Goiânia e, assim como o Júnior, entraria num avião e iria embora. Pra sempre!

As novidades do ano ficaram por conta dos seus irmãos: o Oscar foi aprovado no vestibular de Medicina e o Serginho ficou noivo da Penélope, com casamento marcado para o final do próximo ano. Tuta dava graças a Deus de não estar na cidade quando ocorresse a união de uma menina inteligente e cabeça boa como a Penélope e o bundão do Serginho.

Quanto ao Oscar, ele não estava nem aí, só sabia que jamais iria se consultar com ele. Atualmente, o Tuta não tinha mais saco para entrar em atrito com seus familiares, apenas tentava os aturar com ressalvas.

Ele só não engolia seu pai, e as últimas encrencas que teve em casa foram com ele e, surpreendentemente, por razões políticas...


***


11 de agosto de 89

O Arthur estava em ritmo acelerado em termos de engajamento na campanha do Lula para para presidente da república, que iria se realizar em Novembro.

De acordo com a lógica, todos da sua família votariam nos candidatos da direita: Maluf, Afif, Aureliano e o inimigo da esquerda: o senhor Fernando Afonso Collor de Mello.

Desta vez, além da inevitável tendência de ser "do contra" o Tuta havia adquirido(através da tia Marta) uma certa consciência crítica que não era peculiar às pessoas da sua idade e classe social; adolescentes e pequenos burgueses sem terem onde cair mortos.
A sua insistência em tomar o caminho "da esquerda" acabou rendendo gozações desagradáveis e comentários maldosos, deixando-o de saco cheio.

O mais surpreendente é que, seu estopim costumeiramente curto, demorou a estourar, pois o Tuta suportou gracinhas que não estava habituado a suportar. Porém, quando a "bomba" explodiu, fez um estrago tremendo. No aniversário do seu pai, Tuta tomou umas e sentiu que não seria obrigado a ouvir comentários do tipo que uma das dondocas-amigas de sua mãe fez perto do Arthur:
- Maria Clara, é verdade que o seu filho vai votar no metarlúgico-analfabeto?

Diante do constrangimento de alguns dos convidados, o Tuta se emputeceu com aquela perua vestida com roupas compradas em Nova york e cheirando ¿Paloma picasso¿. Ressuscitou o velho Tuta- inconseqüente e respondeu:
- Não é da sua conta não, mais eu vou votar no Lula sim, por quê?
- Por nada, mas é uma atitude surpreendente.
- Surpreendente por quê? Por que ele trabalha?

Conhecendo seu filho do meio, Maria clara tentou puxá-lo dali, temendo pelo pior:
- Vem cá, vem, meu filho?
- Pode deixar, mamãe. Eu to levando um papo interessantíssimo com essa perua, desculpe, amiga sua. Fique tranqüila.

Achando que contornara a situação, Maria Clara se afastava dali quando ouviu o Tuta perguntar a sua amiga:
- Você já trabalhou alguma vez na vida?

Meio surpresa com a pergunta, a "socialite" tentou sair pela tangente:
- Eu cuido da minha casa, levo meus filhos à escola...
- Papo furado! Você deve ter duas ou três empregadas em casa e seus filhos já devem estar em idade de dirigir, a julgar pela sua aparência, né?

Ao ver a perua arregalando os olhos em sinal de espanto misturado com indignação, o Tuta se animou em foi em frente:
- Você nunca trabalhou na vida! Eu conheço o estilo de vida de vocês: acordar tarde, fofocar no telefone, pegar no pé dos filhos, fazer aulinhas de ginástica prá diminuir a pança, tomar chazinho escroto e fazer bolões prá apostar em que vai ser a corna do mês!

Dito isso, um silêncio tomou conta da sala e de duas dúzias de pessoas perplexas, que ouviam o filho dos anfitriões fazer um discurso assaz constrangedor. Observando a seleta platéia que o assistia, o Tuta prosseguiu:
- Qual é a razão do espanto, galera?! Todo mundo aqui sabe que, se quisermos encontrar os ilustres maridos das senhoras aqui presentes, é só fazer uma excursão pelos puteiros da cidade...

Tentando reparar o irreparável, Sérgio tentou conter seu filho de maneira enérgica:
- Cala a boca, Arthur!
- Desculpe, papai! Devo corrigir o que eu disse. Meu pai não vai a puteiros, ele tem uma amante fixa, que, apesar de ser mais dispendioso, é bem mais prudente.

Os convidados simplesmente não acreditavam no que ouviam: um moleque atrevido expunha todos os podres daquela turma de gente. Sem vontade de falar mais nada e alheio ao estrago que fez, Tuta nem percebeu que seu pai espumava de ódio e sua mãe chorava compulsivamente. Como se nada tivesse acontecido, o filho do meio deixou a sala, em direção ao seu quarto cantarolando:
- Lula-lá, brilha uma estrela! Lula-lá, cresce a esperança...

postado por Randall Ferreira Neto às 22:26 | Comments:



18 de dezembro de 88

A despeito dos planos que cada um fazia para seu futuro, o destino incumbiu-se de reunir pela última vez o Tuta, a Nicole, o Júnior e o Crustáceo.

A data de partida definitiva do Júnior era dali a 3 dias e ele tirou o Tuta da "toca" prá ir "tomar uma" no shopping. O Tuta concordou e, lá chegando, encontraram o Crustáceo, que queria comprar um som para o seu carro. Ele estava casado há pouco tempo, mas já engordara uns 15 quilos, e "envelhecera" uns 5 anos, fazendo o Tuta e o Júnior assustarem com a perspectiva de se casar algum dia.

Enquanto os três inauguravam a rodada de chopes, a Nicole saía do cinema sozinha (uma de suas sinistras manias) e juntava-se a eles após insistentes convites. O papo informal girava sobre inúmeros assuntos, entre eles: a despedida do Júnior. Todos sabiam da capacidade dele e tinham certeza que ele tomara a decisão certa, apesar de reconhecerem que a sinceridade cativante dele deixaria imensas saudades na ex-namorada e nos amigos.

Tudo que o Júnior queria era ser alguém e sobressair-se no meio da multidão, conquistar seu espaço. Difícil seria esquecer a companhia especial daquelas três pessoas. O Crustáceo crescera na casa vizinha à do Júnior, numa rua do setor Marista onde os dois passaram a maior parte da infância e adolescência.

A Nicole fora "a namorada", a grande paixão! A menina que o deixara mais feliz e que mais o fizera sofrer, mesmo ele sabendo que provocara o próprio sofrimento. Mas ele tinha muito mais boas recordações dela do que mágoas e até hoje ainda se lembrava dos planos que eles fizeram enquanto namoravam.

O Tuta era o seu amigo! Salvara-o de uma situação dificílima e o Júnior ainda retribuiria aquele favor. Ele era o cara mais louco que o Júnior já conhecera, pois não media esforços para ajudar os amigos e cometia atrocidades com seu irmão com a maior naturalidade. O Tuta o divertia bastante e o Júnior jamais tentaria mudá-lo, pois era essa sua inconseqüência que o tornava interessante.

Em meio ao papo de despedida do Júnior, este impôs algumas condições:
- Eu tô indo embora, gente, mais tem algumas coisas que, se vocês fizerem, eu mato vocês: festa de despedida, bota-fora no aeroporto e serenata com a música do Milton: "amigo é coisa prá se guardar...".
-Tá muito convencido, hein?! — curtiu o Arthur — Nós vamos deixar você ir embora incógnito!

Várias gargalhadas foram dadas naquela noite com todo o clima de última vez. Tuta era o mais engraçado, pora-louca e inconsequente; o Júnior o mais inteligente, romântico incorrigível e espirituoso; a Nicole a mais sensata, por vezes ranzinza, mas sem dúvida uma pessoa formidável; e o Crustáceo o mais lerdo, o alvo preferido das gozações.

Ao se levantarem da mesa, foi a Nicole que se encarregou de impedir que o clima de despedida emprestasse um pouco de baixo-astral àquela noite gostosa:
- Tuta! Fica com o meu carro, o Júnior vai me deixar em casa.

Ele sacou na hora. O Crustáceo boiou completamente. O Júnior entendeu tudo ao ver ao ver o antigo sorriso malicioso voltar ao rosto da ex-namorada. Ao ver os dois se afastarem de mãos dadas, o Tuta levantou o braço com a palma da mão aberta, para que o Crustáceo desse um tapa que simbolizava a antiga saudações dos dois:
- São 10:40, Crustáceo. Vamos pra farra?
- A noite é uma criança, Tuta! Vamos nessa!
- E a sua esposa?
- Foda-se! Eu ando muito exemplar pro meu gosto!

Dessa forma, em plena madrugada, enquanto a Nicole e o Júnior transavam em algum motel, o Tuta e o Crustáceo se embebedavam com toda dignidade, pela última vez! Ao final daquela noite, o Tuta presenteou o Crustáceo com a eterna foto deles quatro, para que o amigo pudesse sempre se lembrar dos ¿anos dourados¿ da amizade deles.

Três dias depois, como era a vontade do Júnior, nem festa nem bota-fora foi realizado para ele, apenas o Tuta acompanhou-o ao aeroporto. Enquanto aguardavam o vôo do recém-advogado, o Tuta resolveu quebrar o gelo:
- E aí, Junão? Como é que foi a noite com a Nicole?

O amigo piscou o olho e respondeu:
- Foi massa! Um perfeito "flash-back" de despedida!
- Você ainda gosta dela, né?
- Eu vou amar aquela menina para sempre, Tuta! Não vou me esquecer nunca o que aconteceu entre a gente! Também não vou esquecer que te devo "aquele" favor...
- Pode esquecer, babaca! Eu fiz o favor prá Nicole.
- Foda-se! Eu me considero em dívida com você e vou saldar essa dívida algum dia!

Tuta percebia que ia sentir muita falta de seu companheiro, pois tinha a sensação que não mais o veria. Desejou boa sorte ao amigo, despediu-se com um caloroso abraço e também o presenteou com a foto dos quatro na festa da Nicole. O avião decolou e o Tuta constatou que, apesar do Júnior não gostar, a música do Milton Nascimento era perfeita para a ocasião: "amigo é coisa prá se guardar no lado esquerdo do peito, dentro do coração (...) Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar...".

No interior do avião, o Júnior olhava a fotografia demoradamente, sentindo que tudo que o prendia a Goiânia estava naquela foto: o amor da Nicole, a amizade do Tuta...

postado por Randall Ferreira Neto às 22:23 | Comments:



14 de outubro de 1988.

O Tuta ainda era o mesmo para a maioria das pessoas, mas depois que ele chegou de Curitiba, quem realmente o conhecia notava pequenas diferenças em seu comportamento. Essas mudanças sutis chegaram ao conhecimento do Oscar quando ele entrou no quarto do Arthur (sem bater):
- O Serginho não tá aqui não, Oscar — respondeu o filho do meio sem desviar os olhos de um livro de Jung.
- Eu quero falar é com você!

Tuta não se abalou com o tom hostil na voz do irmão, que em outros tempos menos amenos seria um ótimo pretexto para uma surra. O que deixou o Tuta curioso e surpreso, foi a voz enrolada e os olhos meio parados que indicavam que ele estava bêbado. O Oscar bêbado?
- Você tá normal, Oscar?
- Não! Tô completamente bêbado e puto! Você vai me dar uma explicação e é agora!
- Em primeiro lugar, vai abaixando o tom de voz, que eu não sou o Serginho. Em segundo lugar, eu não te devo explicação nenhuma. Eu só vou te ouvir por que eu acho que todo bêbado merece atenção, mas como se trata de você, Oscar, eu gostaria que o assunto fosse breve.
- Mas vai ser breve, muito breve. Eu transei com a Tatiana!
- A sua namoradinha?
- É!
- E o que que você quer que eu diga? "Parabéns" ou "como é que foi"?
- Eu quero que você me diga por que é que não sangrou!?

A essa altura do campeonato o Tuta já sabia perfeitamente onde é que o irmão queria chegar e resolveu ganhar tempo para elaborar uma saída estratégica e diplomática:
- O que, mais precisamente, que não sangrou, Oscar?
- Como, o quê, Tuta?! A peteca, buceta, xuranha, chavasca, perereca, aranha, pamonha! Isso que não sangrou, fui claro?!
- Ô! Você me surpreendeu, Oscar, achei que você só a conhecesse pelos nomes de vulva, vagina e órgão reprodutor feminino, que é como está escrito nos livros de vestibular.
- Não me enrola, Tuta! Me diz por que que não sangrou!?
- E eu vou saber? Não sou ginecologista ou sexólogo. Eu posso tentar te ajudar a esclarecer isso, só para apagar essa dúvida que tá te atormentando. Eu vou te provar que estou sendo injustamente acusado.
- Eu não tô te acusando...
- Tá sim! Se não estivesse, não seria a mim que você estaria contando isso. Eu já te falei que não (mão em concha), mas agora vou te provar. Pega essa "Capricho" aqui e vê... Nessa página.
- "Capricho"? Você lê "Capricho"?
- É leitura didática, mas agora eu não vou te explicar qual é a onda não, lê isso aí, vai.
-Não, não tô afim de ler não. Prefiro que você me explique.
- Tudo bem... você confia em mim?
- Confio.
- O lance é mais ou menos o seguinte: quando uma menina transa pela primeira vez, uma membrana muito sensível chamada hímen se rompe...
- E provoca um pequeno sangramento, isso eu sei. O que eu quero saber é por que que não houve esse sangramento. Nem uma gota!
- Essa é a questão: pode ou não haver este sangramento, por inúmeras razões. O que está escrito aqui na revista é um caso de uma menina virgem que transou com o namorado, não sangrou e o cara ficou "noiado" com isso.
- Como eu?
- Como você. E eu vou te dar um toque de "brother": não deixa sua namorada sacar essa desconfiança. A decisão de transar com você deve ter sido super difícil pra ela, que deve estar cheia de culpa, nóias e dúvidas, confundindo os valores que ela recebeu dos pais com os próprios valores que ela mesma está aprendendo a descobrir. Ela espera que você, enquanto namorado e, por assim dizer, cúmplice, a apóie e demonstre gratidão, não desconfiança.
- Pode crer, Tuta. Eu tô bancando o palhaço. Valeu pela explicação e pelo conselho. Eu ia ferrar o meu namoro.
-Ia. E por causa de um símbolo. O sangramento é só um dos dogmas machistas que permanecem arraigados à nossa arcaica cultura de terceiro mundo...

E assim o Tuta prosseguiu com seu discurso idêntico ao que ouviu seu professor de psicologia fazer naquela semana. O discurso ajudou-o a safar-se daquela situação, deixando-o aliviado. Foi necessário muita falsidade para o Tuta reverter aquele quadro, em que a dúvida do Oscar tinha, realmente, razão de ser, pois o Tuta se lembrava que, quando transou com a Tatiana, saiu uma quantidade de sangue além do normal, deixando-o até preocupado.

Foi o recorde em termos de sacanagem com o irmão, mas, à época, ele desmentiu tudo para que o Oscar não contasse aos pais qual o verdadeiro motivo daquele corte na cabeça. Porém, o Oscar transou com a Tatiana e sentiu falta do sangue, que, em termos práticos, significa a garantia do "rompimento do lacre". Enfurecido, ele foi tomar um porre e tirar satisfação com o Tuta, certo de que o irmão mais velho "estivera ali" antes dele.

Com a habitual maestria que o Zico costuma cobrar as faltas, o Tuta se livrou da desconfiança do irmão, dando-lhe uma explicação conveniente e, numa tacada de mestre, conquistou a confiança do Oscar. Gol do Zico contra o Vasco em maracanã lotado!

E como se isso não bastasse, a pulga permaneceria eternamente atrás da orelha do Oscar: "comeu ou não comeu, eis a questão!".

Poucas semanas após esse episódio, uma inconveniente coincidência colocava frente-a-frente o Tuta e a Tatiana, numa festa de aniversário em que o Oscar não estava presente, pois estudava para o vestibular. A intenção do Tuta ao vê-la no recinto era só cumprimentar a "cunhada" e vazar, mas ela ficou rodeando e começou a puxar assunto:
- E aí, Arthur, tem novidades?
- Não.
- Pois eu tenho.

Ela fez uma pausa proposital para que ele falasse "qual" ou "o que". Diante do silêncio dele, ela resolveu prosseguir por conta própria:
- Eu transei com o Oscar.

Tuta sentiu vontade de dizer qualquer coisa do tipo: "e daí" ou "o que que eu tenho com isso". Preferiu cortar o assunto de maneira polida:
- Ele falou qualquer coisa a respeito. Deve ter sido legal, mais não é da minha conta.
- Sei, sei. E agora?
- E agora o que?!
- Como é que fica?
- Não tô sacando.
- Ué, eu transei com os dois irmãos.
- E daí?! — Tuta já estava começando a se irritar.
- Vocês vão me dividir ou me disputar?
- Eu não acredito no que tô ouvindo: te dividir ou te disputar? Nem uma coisa nem outra!
- Como?
- É, eu tô de saco cheio desse texto: o irmão mais velho sacaneia o caçula "ad infinitum". Pra mim chega! Eu desejo do fundo do meu coração, que você e o Oscar sejam felizes para sempre!
- Não, não pode ser assim. Eu me entreguei pra você!
- Tá, e se entregou para o Oscar também.
- Mas você foi o primeiro!
- Qual a diferença? O Oscar foi o segundo!
- Terceiro.
- O que?!
- É, antes dele e depois de você rolou com um primo meu de São Paulo. Mais um daqueles lances de tesão reprimido por tabu familiar.
- Sei. E depois que rompeu o lacre você resolveu quebrar esse tabu e chifrar meu irmão?
- Mais ou menos.
- Meu irmãozinho tá feito na vida...
- O que que você falou?
- Nada, só pensei alto. Tira essa idéia maluca de disputa da cabeça, viu Tatiana? Eu tô fora!
- Fora?! Pois eu faço você ficar dentríssimo!
- E eu posso saber como?!
- É só eu falar pro Oscar que nós dois transamos. Você já imaginou o que que iria acontecer se ele soubesse?

Tuta sabia exatamente o que aconteceria, pois isso já aconteceu uma vez! O sangrento acontecimento deu muita dor de cabeça pro Arthur (e, literalmente pro Oscar) e ele não estava disposto a passar tudo aquilo outra vez. Portanto ao invés de diplomático, dessa vez ele foi ameaçador, afim de acabar com aquela palhaçada.
- Você tá afim de contar pro Oscar o nosso rolo?
- Tô, só prá ver no que vai dar.
- Pois eu te digo no que vai dar: confusão! Vai brincando com a cornice alheia, vai! Só porque o Oscar tem aquela cara de panaca-que-só-estuda-pro-vestibular, você acha que ele vai aceitar pacificamente esse chifre? O cara vai virar bicho! Você já ouviu falar em Doca Street e Lindomar Castilho?
- Não.
- São só alguns exemplos de autores de crimes passionais. Eu vou te dar um toque, cunhadinha: o slogan "quem ama não mata" é tão estúpido quanto "o importante é competir".
- Você tá só tirando onda, o Oscar é pacato...
- Pacato, claro! Então experimenta, Tatiana! Será que ele vai continuar pacato com uma galhada na cabeça?

Tuta estava conseguindo demover a cunhada da idiota idéia de contar ao Oscar sobre o que rolou entre os dois, pois o silêncio da Tatiana estava acompanhado de uma atitude relutante, demonstrando que Tuta estava conseguindo afastar a bola da sua área definitivamente.

Tanto no ataque como na zaga, o Tuta estava se saindo bem. Com diplomacia ou agressividade, seus objetivos vinham sendo cumpridos na medida do possível, onde ele conseguia se adaptar às surpresas que estava enfrentando. Pra ter certeza que a Tatiana não acabaria com a falsa harmonia que havia sido estabelecida entre ele e o Oscar, Tuta decidiu mentir deslavadamente:
- E para seu governo, eu e o Oscar somos "brothers" mesmo, de sangue e de coração. Se eu fiz o que fiz com você no passado, era porque eu tava apaixonado! Só depois que aconteceu é que eu percebi que não tinha o direito de interferir na felicidade do meu irmão. Você tem irmãos?
- Tenho uma irmã.
- Então você deve estar entendendo o que eu tô te falando. Irmão é uma coisa muito importante! Você não imagina como foi difícil renunciar ao que eu estava sentindo. Pelo bem do Oscar, pois eu saquei que o que ele sentia por você era amor sincero e verdadeiro. Só me restou de consolo as recordações daquele momento maravilhoso que nós passamos.
- Ah! Tuta, você não existe! Se o Oscar soubesse o irmão que ele tem!

"Ah se ele soubesse!", pensou o Tuta, enquanto uma lágrima forçada percorria seu rosto, e o seu íntimo dava gargalhadas. O idiota do Oscar namorava uma menina que não pensava duas vezes em o chifrar. O Tuta não precisaria sacaneá-lo nunca mais, pois o irmão encontrou uma namorada que se encarregaria disso inconscientemente, como se tivesse sido encomendada pelo Tuta.

E assim, todos na casa da família Freitas viviam numa harmonia nunca dantes presenciada. O motivo dessa paz era exatamente o filho do meio, cada vez mais caseiro e tranqüilo, substituindo as noitadas e farras por períodos longos em casa: lendo, assistindo filmes em vídeo e até jogando baralho com o Júnior, a Penélope, o Serginho(!), a Nicole, sua mãe(!!) e o Oscar(!!!!).

A hostilidade dava lugar a um temperamento calmo e suas conversas agressivas transformaram-se em diálogos pacientes e amáveis, ninguém acreditava! Um dos grandes responsáveis por isso era a faculdade de Psicologia, que o ensinava a entender o temperamento das pessoas, manipulando-as e usando-as de acordo com suas conveniências.

Em seu cérebro megalomaníaco, Arthur continuava sendo o centro do universo, mas agora ele reconhecia que havia outros planetas a sua volta e, ao invés de destrui-los, Tuta usaria para continuar pondo em prática suas idéias mirabolantes e seus planos maléficos. O elemento surpresa é que ele usava uma capa de humildade que o colocava em condições de seguir sua estrada de "mão única", pisando em quem atravessasse o seu caminho.

Na verdade, ninguém atravessava seu caminho, mas sua paranóia mal resolvida o fazia crer que todos em sua família gostavam de prejudicá-lo, fosse com a detestável mania do Serginho de "pegar" suas roupas ou as vontades do Oscar sendo satisfeitas. Tudo isso representava para o filho do meio, uma mágoa que ele guardava junto com supostos ressentimentos numa espécie de caderneta de poupança emocionalmente negativa.

Os "juros" e "rendimentos" dessa caderneta eram "depositados" no "cliente favorito" do Tuta: seu irmão caçula. No entanto, havia muito tempo que Tuta estava de férias em termos de sacanagem com o Oscar, dedicando-se à faculdade, aos livros que ele pegava com a tia Marta, às reuniões do partido visando a eleição do Lula e a papos gostosos com o Júnior e a Nicole, separadamente, claro.

O Júnior já estava formado e tinha planos de fazer curso de pós-graduação em São Paulo ou montar um escritório de advocacia com outros colegas de faculdade. Após algum tempo de reflexão e conselhos o Tuta, ele se decidiu por São Paulo. Dentro em breve ele estaria indo embora. A Nicole resolveu que iria ingressar na carreira diplomática. Tão logo concluísse o curso de Direito, faria o concurso para o instituto Rio Branco. A consequência dessa nova decisão é que ela começou a estudar ainda mais...

postado por Randall Ferreira Neto às 22:56 | Comments:



VIII
21 de dezembro de 89, o início do fim


21/12/89. Tuta jamais esqueceria esta data. Havia mais de um ano que ele cometera seu último ato de insanidade: em parceria com o Júnior, rompeu as fronteiras estaduais e foi fazer uma surpresa para a menina que achava que amava. Hoje ele tinha certeza que a amava e que se casaria com ela. E mesmo isso estando bem próximo de acontecer, ele não sabia dizer se, naquele momento, estava extremamente feliz ou profundamente triste.

A tristeza se dava por dois motivos: estava arrumando suas coisas para se mandar de Goiânia e também por que iria embora brigado com a Nicole, a pessoa que ele mais respeitava, confiava e gostava. Depois da Laura ou não, pois não conseguia estabelecer uma ordem de preferência afetiva entre a amiga e a namorada. Amava ambas, mas teve que renunciar a uma para ficar com a outra e o último papo dos dois não foi dos melhores, pois o Tuta ainda conseguia se lembrar com perfeição as últimas palavras ditas pela Nicole há poucas horas, no santuário:
- Tudo bem, tudo bem. Não precisa esquentar não, pode ir embora para onde você quiser, mas tem um detalhe, Arthur: eu nunca mais quero ver a sua cara! Some da minha frente, eu te odeio!

Dito isso, desceu sem olhar para trás nem dar ouvidos aos apelos do Tuta para que ela ficasse. Ele simplesmente não compreendia a razão daquela fúria toda. Entre ir atrás da Nicole ou ficar lá no santuário, o Tuta ficou com a segunda alternativa, já que conhecia tão bem a amiga a ponto de saber que sua teimosia sempre foi maior que sua compaixão, e sua capacidade de ouvir o que não queria nunca foi das melhores. Portanto, a explicação ficaria para outro dia.

O único problema é que o Tuta sabia que, dificilmente haveria outro dia, pois, de acordo com seus planos, iria embora na manhã seguinte num vôo com destino a Curitiba, levando na bagagem, entre outras coisas, a certeza de que jamais voltaria a Goiânia.

Ninguém pense que o Tuta tivesse alguma mágoa da cidade em si, muito pelo contrário, pois ele adorava a atmosfera provinciana da capital goiana, que parecia viver numa eterna crise de identidade, pautada pela dúvida: ser, definitivamente uma cidade grande ou permanecer numa condição de cidade de interior que cresceu um pouco além da conta?

Enquanto essa dúvida não se resolvia, Goiânia continuava com sua vida noturna pacata e sem atrativos, mas com seus inconfundíveis botecos sempre lotados. Botecos estes que muitas vezes serviram de palco para inesquecíveis noitadas do Tuta e seus companheiros: Nicole, Crustáceo, Júnior...

Dessa forma, fica absolutamente claro que a decisão do Tuta de não retornar a Goiânia não era em função da cidade em si, mas de alguns de seus habitantes. Mais precisamente, os habitantes de seu apartamento situado no oitavo andar de um tal edifício na rua 12, setor oeste. Em outras palavras: sua família!

Ele já não era tão hostil com seus familiares, até que mudara bastante em relação a isso, porém, a saturação com eles atingiu níveis assustadores, a ponto do Arthur não suportar acordar e dar de cara com seus pais e seus irmãos.

A causa evidente da revolta era a mesma de sempre: nenhuma! Mas não havia nenhuma razão para que ele se visse obrigado a aturar seus pais, exemplos de mediocridade, e seus irmãos, modelos de boçalidade, pelo menos no seu ponto de vista. Então, ele iria embora. Não seria para outro bairro, mas para outra cidade, estado, país... não importava. O importante era não ver mais a cara daquelas pessoas com que ele teve duas décadas de convivência forçada.

Enquanto ele se entristecia em ter magoado a Nicole (sem saber o motivo) e se aliviava por estar deixando aquele funesto apartamento pra sempre, revisava mentalmente seus planos: iria para Curitiba buscar a Laura e, de lá, rumaria para algum canto entre o Oiapoque e o Chuí, ou, numa extensão maluca, entre os pólos Sul e Norte.

Esses planos, a primeira vista mirabolantes, só tinham fundamento em razão do Tuta possuir na mão um cheque no valor de 318 milhões e 520 mil cruzados novos, o equivalente a 53 mil dólares. Obviamente, aquilo era bem mais que um simples papel-moeda fiduciário com um valor exorbitante. Aquele cheque era seu passaporte para a liberdade, era o aval para seus planos e o catalisador da reação que o colocava junto da Laura.

53 mil dólares! Fora uma decisão altruísta e incomum de seu pai, presentear cada um de seus filhos com essa generosa quantia, proveniente da venda do prédio onde, por muito tempo, funcionou o (agora) finado Diplomata¿s. O adorável bar e restaurante do pai do Tuta estava definitivamente acabado, falido, fudido! Como dizia Drummond: o Diplomata¿s hoje é apenas um retrato na parede, mas como dói... Porém, essa dor não era sentida pelo Tuta, por seus irmãos ou por sua mãe; a única pessoa que lamentava a perda do bar era seu pai, que, mesmo com os bolsos cheios de dinheiro devido a um golpe do destino, sentia que uma parte do seu corpo havia sido arrancada com o definitivo fechamento do Diplomata¿s.

Sem dar a mínima para o apego do pai ao estabelecimento, o Tuta não conseguia, por mais que tentasse, apagar da cabeça a última briga com a Nicole e já sabia que não seria capaz de dormir naquela noite; não com o espectro da Nicole sentida com ele. E ele nem sabia o porquê! Portanto, a ele só restava o consolo de passar o tempo remexendo em coisas velhas e trazendo a tona antigas lembranças de tempos gloriosos que, com certeza, deixariam saudades.

Após um bom tempo de "escavações arqueológicas" em suas gavetas, três objetos repousavam em seu criado-mudo: o relógio que a Nicole lhe dera de aniversário, idêntico ao que estragou no salto do penhasco, a fotografia dos dois no aniversário dela de dez anos, e a imortal fotografia em que ele, a Nicole, o Júnior e o Crustáceo faziam um brinde à amizade, a ampla e irrestrita amizade, um sentimento que o Tuta reverenciou por muito tempo, sabendo respeitar e preservar. Seus amigos! Seus amigos? Com certeza, seus amigos!

Amigos distantes ou não, mas amigos. Aquelas fotos e o relógio eternizavam suas amizades, mas ajudam a constatar que faziam parte do passado. O cheque e a Laura eram o presente que nortearia seu futuro que, atualmente, era nebuloso e confuso.

Passado, presente e futuro confundiam-se na cabeça do Arthur, e ele sentia uma repetida sensação que alguma porta se fechava e mais um ciclo se encerrava em sua vida. A mesma sensação que ele teve ao voltar de Curitiba com o Júnior no ano passado, e foi justificada por algumas surpreendentes atitudes...

postado por Randall Ferreira Neto às 23:01 | Comments:



(A Blue ficou de plantão, mas parece que o Blogger foi curtir o feriado e não estava muito afim de trabalhar. Assim, após uma pequena pausa, voltamos à nossa programação normal para postar, finalmente, a última parte do capítulo VII.)

Acordaram tarde e deram de cara com um "hotelesco" café-da-manhã, servido à beira da piscina. O Tuta e o Júnior estavam sendo tratados com todas as honras e mordomias possíveis, chegando até a assustarem-se com o excesso de boas maneiras demonstradas pela família da Laura, sem que eles pudessem retribuir de forma alguma.

Para o Tuta, parecia o paraíso e para o Júnior, melhorou muito mais quando a prima da Laura chegou para participar do "breakfest" em homenagem aos goianos.

Como havia planejado previamente, o Tuta manteve-se em plena abstinência alcóolica até o almoço e depois, apenas bebericou "de leve" algumas caipirinhas preparadas com esmero e maestria por seu sogro. Seu objetivo era dedicar-se em tempo integral à Laura. E ele estava levando a cabo seu plano, pois se entregou a intermináveis papos com a Laura, intercalados por calorosos beijos.

O Júnior abdicou dos papos e concentrou-se tão somente nos beijos com a Larissa, prima da Laura, uma menina de cabelos curtos, olhos azuis, corpo bem feito e rosto malicioso.

Alheio à nova aventura do colega, o Tuta ia se divertindo com sua namorada, uma pessoa de altíssimo astral, extrovertida e sem "papas" na língua. Enquanto ele ia tecendo um sem-número de elogios ao recém descoberto sogro, uma curiosidade irritante aliada a uma discrição que não lhe era peculiar, fez com que acabasse perguntando à Laura:
- O que que seu pai faz, Lau?
- Eu não tenho certeza não, mas acho que ele é banqueiro de jogo do bicho.

A naturalidade com que ela respondera afastava qualquer hipótese de constrangimento ou irritação com a pergunta, ou seja, ela estava falando a verdade, a mais pura verdade. Antes que o Tuta fizesse qualquer comentário, a Laura prosseguiu:
- Meu pai nunca falou nada a respeito, mas saem manchetes em jornal ligando seu nome ao jogo do bicho, cassinos clandestinos e outras tramóias. O mais excitante foi quando alegaram que ele estava envolvido em tráfico de drogas, só que ele conseguiu se safar.
- Excitante?! Você achou excitante o nome do seu pai envolvido com o tráfico de drogas!?
- Ah, é o maior barato! Existe coisa melhor do que ser contraventor neste país?
- Eu imagino que deve ser muito fácil, com governantes corruptos, um poder judiciário inepto e uma polícia medíocre, acho que é moleza!

Por mais maluco que fosse, Tuta não estava preparado para uma novidade como essa: seu sogro era um marginal e sua namorada achava isso o máximo! Antes que ele fizesse alguma objeção ao fato de namorar a filha de um bicheiro, começou a imaginar o que sua mãe iria achar daquilo: seu filho envolvido com a filha de um membro do crime organizado. Ela iria se descabelar, entraria em pânico, desespero, possivelmente tentaria o suicidio, etc... Em outras palavras: seria um prato cheio para o Tuta, que resolveu dar asa para sua namorada e deixá-la entrar em detalhes sobre a nobre profissão do pai.

Durante um bom tempo ele a ouviu dizer um monte de coisas sobre o submundo do crime, que ele só conhecia pelas notícias sensacionalistas e tendenciosas da televisão. Somente as duas irmãs mais velhas da Laura ajudavam o pai nos "negócios", ficando ela e a irmã caçula meio por fora da fonte de renda da família. A Laura se revoltava com isso, pois não via a hora de tomar frente nas atividades contraventoras do pai, recebendo dele uma enorme sequência de respostas negativas a sua intenção de paricipar dos "negócios".

Além disso, seu pai negava veementemente que mexia com o jogo do bicho, e dizia-se corretor imobiliário. Mas a imobiliária, apesar de existir na realidade, era apenas a "fachada" e o meio de lavar algum dinheiro obtido com a contravenção. Este e outros detalhes chegavam à Laura via Cristiane e Luciana, suas irmãs mais velhas que trabalhavam com o pai.

Quando elas tomaram conhecimento das atividades do pai, a princípio elas ficaram horrorizadas e um pouco decepcionadas, mas se calaram ao perceberem que era "dali" que vinha o excelente padrão de vida que possuiam. Com o tempo, foram se acostumando e, conseqüentemente, tomaram parte nos negócios com certa naturalidade e até mesmo satisfação, pois constatavam que os obscuros negócios do pai lhes rendiam a mansão em Curitiba, apartamentos de veraneio, casa de campo, carros do ano, viagens ao exterior e toda espécie de coisas que o dinheiro pode obter, sufocando todo e qualquer valor moral que possa contestar a origem pouco honesta deste dinheiro. Como projetos de futuro, o sogro do Tuta tencionava uma atraente vaga no congresso Nacional — que lhe granjearia a tão cobiçada imunidade parlamentar — e o comando de um time de futebol.

Como o Tuta não era apegado a tradições, rígidos valores morais pré-estabelecidos, e falsos pudores, achou até interessante a revelação sobre a profissão do simpático sogro. E a Laura continuou discorrendo sobre o assunto:
- Pra falar a verdade, Tuta, eu não vejo nada de mais no jogo do bicho. Na boa, eu não consigo enxergar meu pai como um criminoso, sério mesmo!
- Talvez ele não seja.
- Eu acho que não é. É uma profissão como outra qualquer. Ele paga bem seus funcionários, ajuda clubes de futebol e ainda faz altas doações para hospitais e creches...
- Mas não paga imposto...
- E você quer me dizer que esses mega-empresários "legalizados" pagam devidamente seus impostos? Sonegação por sonegação, pelo menos meu pai não explora os empregados e ainda é meio filantropo. No Brasil, ser 100% correto é sinônimo de estupidez e prejuízo, além de ser extremamente sem graça.

Ao ouvir isso, veio à cabeça do Tuta a figura do Serginho, a pessoa mais politicamente correta que ele conhecia. Como ele tinha como filosofia da vida ser o extremo oposto do seu irmão mais velho, resolveu aceitar o ponto de vista da Laura sem restrições, divertindo-se com algumas estórias um tanto folclóricas sobre o sogrão.

Apenas duas o deixaram com o pé atrás: o estranho assalto seguido de surra que ocorreu com um ex-namorado da irmã mais velha da Laura, e a misteriosa demissão de um professor da faculdade, que reprovou a Luciana após acusá-la de estar colando.
Eram fatos que mostravam ao Tuta em que terreno ele estava pisando: não era terra firme, nem areia movediça, apenas uma situação que requeria alguns cuidados especiais, mas ele possuia jogo de cintura suficiente para tirar de letra qualquer problema que adviesse dali, afinal de contas, já havia conquistado a completa confiança do sogro.

E assim, o sábado transcorreu igualmente maravilhoso, como a sexta, e foi fechado com uma intrépida fuga em direção a um fantástico motel de Curitiba. Só que essa "fuga" instalou a seguinte pulga atrás da orelha do Arthur: "como é que ela sabia desse motel? Com quem será que ela veio aqui? Etc...". Porém, ele desencanou disso tudo ao lembrar que sua vida afetiva e sexual em Goiânia não era das mais exemplares. Logo, ele resolveu curtir a noite e aumentar a sua certeza: "vou casar com essa menina maluca, vou mesmo!".

O domingo foi marcado por melancólicas despedidas, em que o Tuta e a Laura diziam "te amo" e o Júnior e a companheira (prima da Laura) diziam "te ligo e te escrevo", mesmo que ambos soubessem que não fariam nem uma coisa nem outra, apenas curtiriam as saudades deixadas por aquele curto "affair" na capital paranaense.

Saudade, saudade e muita saudade. Era tudo que o Tuta sabia que iria sentir enquanto estivesse longe da Laura, seu agradável sotaque, seu temperamento imprevisível, os inesquecíveis olhos azuis e a gostosa gargalhada. Como ele iria sentir falta daquilo...

O trajeto de volta teve um clima de velório, com o Tuta num monumental bode e o Júnior sem fazer o menor esforço em levantar o astral do amigo, deixando-o curtir a inevitável fossa. Eles só levaram um papo demorado quando o Tuta comentou com o Júnior sobre as atividades do seu sogro. O Júnior riu, achou interessante e disse que combinava com o Tuta.

"Será?" — pensou o Tuta. Por mais que esforçasse, não conseguia se imaginar como um mafioso, num cenário sombrio, cercado de capangas e beijando o anel do sogro. Não era essa vida que ele queria, contudo, não cometia a burrice de dizer: "Dessa água não beberei". Se fosse preciso, para ficar com a Laura ele abraçaria a contravenção com todo carinho, pois ela valia qualquer sacrifício. Ela valia tudo pra ele!

Ao raciocinar assim, o Tuta começou a se perguntar: de que adiantam as farras, a mulherada, a bebedeira, o desinteresse pela faculdade, a revolta com a família, onde ele ignorava a mãe, hostilizava o pai, odiava um irmão e sacaneava outro? De que adianta tudo isso? Ele precisava de tudo isso ou poderia renunciar? Estava nascendo um novo Tuta?

Pouco provável, pois aquilo tudo parecia estar meio enraizado em algum recanto do seu cérebro; ele não conseguia simplesmente extirpar como se fosse um tumor. O máximo que conseguiria era amenizar um pouco seu ódio e sua revolta, sem, contudo, descaracterizar-se.

A descoberta da intensidade do sentimento que ele nutria pela Laura encerrava uma espécie de ciclo na sua vida...

postado por Randall Ferreira Neto às 22:17 | Comments: